Luís “karateca” Fortes: “Nunca perdi um combate”

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Deixou a sua influência na geração que começou a aprender as técnicas do Karaté com o mestre Abê nos anos ’70, em S. Vicente. Luís Fortes, por muitos tratado por Luís Karateca, foi um campeão holandês e da Europa que amealhou uma série de troféus nos dez anos que se dedicou aos combates full contact. Na sua carreira defrontou alunos de Bruce Lee e de Chuck Norris durante uma digressão que o chamado “dream team” norte-americano fez pela Europa. Nesta entrevista revela que foi o único a derrotar Owen Jackson, considerado um invencível. De regresso a S. Vicente, sua ilha natal e onde efectuou três demonstrações históricas no cinema Eden Park em 1976, este emigrante radicado na Holanda desde os 18 anos pretende abrir uma escola que terá o sensei Zeca Calazans como professor e a orientação do mestre Abê. Reformado, Luíz Fortes, 74 anos, tenciona vir mais vezes a Cabo Verde para acompanhar o funcionamento do dojo e ajudar no crescimento das artes marciais.

Por Kim-Zé Brito

Mindel Insite – Como é que o Karaté entrou na vida de Luís Fortes?

Luís Fortes – Comecei a praticar na Holanda em 1965, mas o meu primeiro desporto foi o Boxe. Depois passei para o estilo Kyokushinkai e atingi o cinto cinzento. Entretanto passei a treinar o Taekwondo, por ser um estilo que utiliza bastante a combinação de pontapés e pude desenvolver a minha técnica de pernas. Graças a isso sagrei-me campeão da Holanda em 1969. Havia competições todos os meses e eu participava em quase tudo o que aparecia. Ganhei várias medalhas.

MI – O que o atraiu a sua atenção para as artes marciais?

LF – Já na minha infância em S. Vicente havia essa paixão nas crianças pelo desporto e costumávamos brincar de “pegada”. Havia um senhor conhecido por Bzuk que gostava de incentivar a “luta” entre crianças. Ele gostava de me colocar frente a pessoas mais fortes que eu porque eu tinha muita coragem. Assim, quando emigrei, fui com a intenção de entrar numa escola de arte marcial. Cheguei na Holanda com 18 anos e o primeiro barco que embarquei esteve no Japão. Entretanto, numa passagem pela Alemanha fui atacado por quatro homens. Jurei que, assim que desembarcasse, iria aprender uma arte marcial. Fui com essa ideia de aprender para depois vingar-me, mas isso passou.

MI – Quando entrou para a escola sentiu que era aquilo que estava a precisar?

LF – Sim e inspirei-me muito no Titino Boxer e no Jôn Boi, o primeiro era um grande pugilista, o segundo tinha uma força descomunal. Fiquei também muito marcado pelo Zizim Figueira, que derrotou o Titino Boxer e se sagrou campeão de Cabo Verde. E ele morreu campeão porque fez um único combate na sua vida, pois logo de seguida foi para França, logo não perdeu o título. Levei todas essas referências para a Holanda.

MI – Teve influência dos filmes de Karaté?

LF – Não, por acaso nunca gostei dos filmes que via. Quando os filmes começaram a ser passados nas salas de cinema já praticava Karaté. Por conta disso reparava que havia muita fantasia. Por isso foi muito bom vir a Cabo Verde mostrar o que era realmente o Karaté. Tive a oportunidade de conhecer muitos artistas norte-americanos.

MI – Acabou por se tornar um profissional das artes marciais?

LF – Até certo ponto porque combati e dei aulas durante quase 20 anos. O que ganhava no desporto dava para viver, além disso a escola onde ensinava era daquelas com mais alunos na Holanda.

MI – Qual o estilo que ensinava?

LF – Taekwondo porque deixei de treinar Kyokushinkai. Na altura tive a oportunidade de combater com um “peso pesado” de Kyokushinkai, enquanto eu era “peso leve” de Taekwondo. O combate decorreu num hotel em Amsterdão e teve uma grande assistência. Ganhei, sagrei-me campeão da Europa e isso provocou uma grande popularidade do estilo Taekwondo. O Karaté é 75 por cento mão e 25 por cento pernas, enquanto o Taekwondo é o inverso. Logo, enquanto ele usava as mãos eu usava as pernas, que têm mais força.

LF – Fui campeão da Holanda, da Europa e campeão de preparação mundial, pois ainda não era um titulo de campeão mundial oficial. Era um teste para combates de full contact em artes marciais, uma mistura de estilos, e sagrei-me vencedor da medalha de ouro.

“Tenho dúvidas se o Bruce Lee podia vencer-me”

Amostra dos troféus conquistados na Europa

MI – Teve também uma experiência no cinema. Como foi?

LF – Fui convidado para participar num filme que teria a presença do Bruce Lee. Entretanto ele viria a falecer e o seu papel foi executado por um chinês especialista em Kung Fu e eu acabei por contracenar nesse filme.

MI – Então, não teve a oportunidade de conhecer Bruce Lee?

LF – Não tive essa possibilidade, mas conheci outros colegas dele, como Jeff Smith, Bill Wallace, Joe Louis, Owen Jackson e Chuck Norris, que na altura eram os grandes campeões da América e eram conhecidos por Dream Team. Estiveram na Europa num périplo em homenagem ao Bruce Lee e Owen Jackson era dos melhores da escola de Norris. Fui o único que ganhou os americanos na Europa. Na Holanda, apliquei um knock-out ao Jackson e ele caiu três vezes. Na revista “Karate Magazine” escreveram que “Luiz Fortes bateu Jackson uma vez e provocou-lhe três KO”. Ele foi levantado por três vezes e caiu três vezes.

MI – Qual era a tua apreciação sobre o Bruce Lee como artista marcial?

LF – Bruce Lee… ele teve um professor que foi o meu também – Jhoon Rhee –, considerado o pai da federação do Taekwondo – e foi investido muito dinheiro na sua pessoa. Ele chegou a fazer a série Green Mask e as cenas mostram que ele não tinha boas técnicas de pontapé. Ele foi aprender a usar as pernas com o Taekwondo e teve noções de Boxe com Cassius Clay. Podemos ver a influência deste pugilista nos filmes de Lee.

MI – Isso significa que não vê o Brucee Lee como o grande mestre de artes marciais, essa figura venerada como um dos expoentes mundiais das artes de combate?

LF – Bruce era um grande actor e temos de separar as águas entre um actor e um mestre. É claro que tenho um grande respeito pela sua pessoa, mas no mundo do cinema os actores têm duplos. O Bruce tinha a liberdade de fazer o que ele quisesse, tanto assim que gastava muito dinheiro até conseguir a “cena perfeita”.

MI – Se tivesse a oportunidade de defrontar o Bruce Lee num ringue como acha que seria o resultado?

LF – Nunca poderia dizer com certeza absoluta que iria vencer o Bruce Lee, mas não posso também afirmar o inverso. No meu tempo vivia praticamente de combates. E eu ainda tenho a tendência de ver o Bruce Lee como um actor. Cheguei a ganhar os melhores da América e que foram colegas do Bruce Lee, caso de Owen Jackson, que era visto como um invencível. Nunca perdi um combate.

MI – Nunca perdeu um combate?

LF – Nunca.

MI – Durante quantos anos combateu?

LF – Cerca de 10 anos e participava em tudo que aparecesse. Houve situações em que pais dos meus adversários me pediam para não competir para os filhos terem hipóteses. Só que depois iam para a imprensa fazer basofaria e dizer que, se eu estivesse presente, seria vencido.

Com a selecção de Cabo Verde e o professor Emanuel Bettencourt – Facebook

MI – O que o levou a parar a carreira?

LF – Há momentos em que temos de pensar na família, principalmente quando temos filhos. Há mais despesas e aquilo que ganhava nos combates não era suficiente para aguentar os encargos. Tentei sobreviver com o desporto, mas não dava. Assim que parei, o desporto de combate ganhou outra dimensão. Se eu tivesse iniciado a minha carreira agora, estaria milionário. Ganhei uma série de trofeus e recebia uma pequena taça. Valorizava a taça como se fosse um grande troféu porque o mais importante era o título. Hoje um lutador encaixa 100 mil dólares num único combate. Com a energia e experiência que tinha podia estar num outro patamar.

MI – Alguma vez competiu no Japão e na China?

LF – Nessa altura não havia esses intercâmbios.

Espectáculo no Eden Park com o mestre Abê

Reencontro com o mestre Abê em S. Vicente – Facebook

MI – Em 1975 veio para S. Vicente e fez uma demonstração no Eden Park com o mestre Abê. Como é que foi esse momento?

LF – Nessa época as pessoas não sabiam como eram as demonstrações de Karaté, sequer o mestre Abê. Ele trouxe o seu estilo do Japão, mas não veio com a intenção de ser professor. Como havia muita gente interessada em aprender, ele abriu uma escola, o que foi muito bom. Fiquei contente por ver o trabalho que ele desenvolveu em S. Vince porque, graças a Abê, temos grandes atletas em Cabo Verde nas artes marciais.

Lembro-me que o amigo Orlando Rodrigues levou o Abê à minha casa e mostrei-lhe algumas coisas que podíamos fazer na demonstração. Mas ele não quis inicialmente porque pensou que eu queria desafia-lo para algo sério. Disse-lhe que não era nada disso, trabalhamos e fizemos uma boa demonstração no Eden Park. Demos três espectáculos com sala cheia e o sr. Lulu Marques pediu-me para fazer mais um, mas não foi possível. Depois fui para cidade da Praia, onde dei uma demonstração que ficou na memória das pessoas. Até hoje há quem diga que o Luís afugentou até os cães para não mais voltarem.

MI – Porquê diziam isso?

LF – É que conseguia movimentar o ar e provocar uma certa vibração. Na verdade temos uma força que nem imaginamos. Com a força física necessária e a técnica certa podemos deslocar uma certa massa de ar. Como o cão tem uma forte sensibilidade, consegue captar esse ruído, que é um som desconhecido que o deixa perturbado. Por isso as pessoas diziam isso.

MI – Qual foi o impacto que as tuas demonstrações tiveram nos jovens?

LF – Foi tremendo, a minha presença em Cabo Verde motivou muitos jovens e que hoje ainda são referências, como o Djulay, Bebeto, Zeca, Pirass…, todos treinados pelo mestre Abê com base numa grande disciplina. Houve quem tenha enviado os filhos da Praia para Holanda para aprender Karaté comigo.

MI – Como vê o nível do Karaté agora em S. Vicente e em Cabo Verde?

LF – Eu é que represento Cabo Verde na Europa, nessa condição fui para Marrocos com a selecção e estivemos no Open do Sal, onde ficamos em terceiro lugar. O que precisamos aqui é de uma melhor preparação física. Sei que Cabo Verde tem muitos talentos, mas precisamos de mais meios para desenvolvermos essa matéria-prima. O pessoal está motivado, mas as escolas têm de investir mais no Kumité e no Kata. É preciso competir mais, fazer um ou dois combates por mês porque a rotina é que nos permite especializar.

MI – Como Luís Fortes pode ajudar na divulgação do Karaté em S. Vicente e na qualificação dos alunos?

LF – Pretendo abrir uma escola no Mindelo, mas numa área diferente. As escolas que existem estão concentradas na ex-zona militar, o que dificulta o treino de pessoas que moram nos locais mais distantes. Quero identificar um espaço e abrir essa escola, que irá contar com a ajuda do sensei Zeca e do mestre Abê. Vamos colocar uma propina ao alcance dos alunos e pedir ajuda da comunidade emigrada para equiparmos o espaço. Como já estou reformado, passo a vir com mais frequência para poder acompanhar o funcionamento da escola.

Encontro histórico com o mestre Abê

MI – Encontrou-se recentemente com o mestre Abê em S. Vicente. Qual foi a sensação de cumprimentar esse velho companheiro?

LF – Foi muito bom, um retorno ao passado. Abê ficou também muito emocionado com o encontro porque sou uma referência na sua memória. Diria que foi um encontro histórico e calhou que foi durante um campeonato em S. Vicente. Todos os jovens-alunos que não nos conheciam ficaram surpresos e reconheceram o privilégio de conversar connosco.

MI – Fizeram alguma demonstração?

LF – Nada disso, apenas fizemos uma pose de combate para uma fotografia para a posteridade.

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