Mindelo, porque sim!

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Por Rocca Vera Cruz 

Há tempos recebi um email, que transcrevo, pedindo para explicar por que gosto tanto de Mindelo. Aí vai, mais uma vez. 

Querido amigo,

Sei que a vida e a tua querida cidade do Mindelo são dos principais temas das tuas crónicas. Por vezes, fugidias, por outras, talvez, ingratas, sei lá. (… ) As reviravoltas desta vida graciosa nos fazem meio doidos, meio confusos, mas também inteiramente humanos.

( ) Por ti oro hoje, querido amigo. Não, não quero recomeçar os nossos intermináveis debates sobre Deus. Oro para que possas rir alto como só tu sabes, o riso que vem do coração onde a tua fé habita. Só Deus – seja ele quem for, e para ti é Cristo, Candomblé, Umbanda, Amor, auto-ajuda, etc. – e tu sabem onde fica o endereço desta fé.

Não rogo por vida longa, mas por vida bem vivida, e nisso…. O tempo, ah, este eu e tu já sabemos que não dá para controlar. A gente quer mesmo é ser embalado por ele nas esquinas do mundo, nesse teu mundo que é a tua Cidade do Mindelo. Por isso, quando tiveres tempo e paciência, explica-me por que gostas tanto de Mindelo.

Com estima,

Querido Amigo:

É aqui, em MINDELO, o lugar onde eu durmo, acordo, trabalho, me divirto, brigo – dou e levo – e hei-de morrer. A minha cidade é bem mais que um amontoado de cimento e ferro em forma de casas – é uma experiência de bem-estar ou mal-estar. Alguns se tornam reféns de sua cidade, sequestrados por circunstâncias profissionais, financeiras e familiares. Outros, como eu, vivem onde desejam.

  1. Amo as cidades que sabem se reinventar, como Mindelo, que passou a ser a capital cultural de Cabo-Verde, título sem sentido e equivocado num país cuja diversidade cultural não respeita território e dispensa cidade com tal título. Mindelo soube transformar uma decadente zona das bambas do Lombo enquadrando um hospital, farmácias, lojas, uma linda avenida, um polo de atracção desportiva capaz de arrancar os jovens dos seus prédios para se divertirem com outros jovens do resto da cidade, no futebol, futebolim, ensaios de carnaval… Mindelo soube resgatar o carnaval, oficial e de rua, fazendo da morada tão ou mais atraente que o sambódromo que andam por aí a arquitectar.
  1. Amo as cidades que têm esquinase, principalmente, quando estas são ocupadas por pastelarias e botequins, para a gente ouvir pela manhã o balconista gritar: “Saí um prego e uma meia de leite’’. À noite, na volta para casa, uma rápida parada no bar preferido jogando conversa fora com alguém que nunca vimos antes, ouvimos deliciados “1 Strela gelada e 5 pastéis de milho, o freguês tem pressa, a mulher está à espera. S’ele demorá inda ela ta coçal osse”.
  1. Amo as cidades amigáveis, que tratam bem habitantes e visitantes e onde, num único quarteirão, a gente pode encontrar quase tudo. Mindelo tem o parquim para crianças, a marina para os yachtes, o Café del Mar para uma cerveja ao fim da tarde, táxis, hotéis, guias turísticos, lavadores de carros. Tudo junto. Amo as cidades amigáveis com os visitantes, pela gentileza da população e por uma sinalização urbana feita para evitar que um qualquer forasteiro se perca.
  1. Amo as cidades com diversõespara todas as idades, independentemente de quanto temos no bolso. Temos praias, metade do problema está resolvido. Parques, praças, museus, centros culturais, teatros, bibliotecas e shows. Amo as cidades com locais para se confraternizar a céu aberto. Kel thanks, Mindelo. 
  2. Amo as cidades que respeitam sua história e a sua arquitectura e, por isso, se tornam donas de uma força misteriosa que faz com que moradores, até os mais cosmopolitas, relutem em se afastar, apegados aos bairros onde vivem, às paisagens conhecidas, aos prédios e monumentos, ao Monte Cara, ao Porto Grande e também às praças, ruas, travessas e becos, repletos de significados. E Mindelo, respeita, ainda, a sua alma: em nenhum outro lugar do mundo se pode ouvir a seguinte conversa entre uma senhora de baloi com o filho recém nascido ao lado – “esse menino ca ta parcê c’sê pai”, diz-lhe uma  amiga que foi se certificar de um ‘bonê’ que corria pela cidade que o menino era filho de corno. A resposta veio célere, a senhora de baloi levanta a saia, baixa as mãos e responde: “uvi , esse ê um catota, ele ê nê um máquina de fotocópia!”
  1. Já não amo Mindelo, cidade onde poucos podem exercer a sua cidadania. Uma cidade onde há crianças passando fome. Uma cidade com moradores de rua sem que haja alguém que lhes garanta compreensão, abrigo e oportunidades. Cidade onde trabalhadores perdem horas preciosas de sono porque motos e carros desrespeitam tudo e todos não deixando ninguém descansar. Já não amo Mindelo, cidade cujo hospital recebe uma enorme percentagem de doentes com problemas de álcool e drogas.

 

  1. Amo Mindelo porque esta cidade teima em contradizer-me!

 

 

 

 

 

 

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