Morgadim homenageado em S. Vicente: Presidência concede 1. grau da Ordem do Dragoeiro ao compositor de “Cise”

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O músico Morgadim, compositor e trompetista incontornável do emblemático grupo Voz de Cabo Verde, foi ontem à tarde agraciado pelo Presidente Jorge Carlos Fonseca com o primeiro grau da Ordem do Dragoeiro, a maior distinção atribuída a artistas pelo Estado de Cabo Verde, como reconhecimento pelo contributo dado em prol da elevação da cultura cabo-verdiana dentro e fora do país. Segundo Fonseca, o autor da célebre morna Cise é o terceiro artista que ele homenageia na qualidade de Presidente da República, depois de Bana e Catchass, decisão que para ele foi bastante simples.

“Reparei que a condecoração mais alta atribuída a artistas é a Ordem do Dragoeiro, que tem vários graus. Concedi o primeiro grau a Morgadim, o mais elevado. Como Presidente atribui esse título pela primeira vez ao Bana, como uma espécie de reparação, em vida, pelo seu trabalho. Na altura achei estranho que outros músicos de valor tivessem sido agraciados e que ainda não tivesse acontecido com o Bana.  O segundo músico a quem atribuí essa distinção foi o Catchass, a título póstumo. Agora cabe ao Morgadim esse reconhecimento, pelos seus 70 anos de carreira, um exímio trompetista, compositor, intérprete e líder porque ele foi líder de um dos grandes grupos, o Voz de Cabo Verde”, explicou JCF às várias personalidades convidadas para o evento, que decorreu no Palácio do Povo, na rua de Lisboa.

Com essa insígnia, o compositor do hino “Cabo Verde d’one 2000”, segundo ainda Fonseca, entra para um lote de reconhecidas figuras artísticas do mundo musical distinguidas com a mesma Ordem por outros Presidentes da República e que abrangem a diva Cesária Évora, o cantor Ildo Lobo e o compositor Manuel d’Novas.

No seu curto discurso, Morgadim deixou claro que nunca se entregou à causa da cultura cabo-verdiana com a ideia de ser homenageado. No entanto, prossegue o músico num tom brincalhão e jovial muito característico, reparou que artistas mais jovens estavam a ser louvados pelo que resolveu colocar-se também na “fila”. “Mas reparei que não havia ética, pois os mais jovens estavam a ser distinguidos e os mais velhos esquecidos. De modo que senti uma certa tristeza e pensei em desistir de esperar. Mas depois decidi persistir e fiz bem em não deixar a fila. Espero que os meus netos um dia possam dizer com orgulho que o avô deles participou em algo em prol da cultura da sua terra”, disse o artista, que não esqueceu os velhos colegas do grupo Voz de Cabo Verde, com os quais fez uma “longa caminhada” na sua vida, como o saxofonista Luís Morais, o pianista Chico Serra e o guitarrista Toi Ramos. O primeiro já faleceu e os dois últimos fizeram questão de comparecer na cerimónia.

“Este é um gesto louvável do sr. Presidente da República porque Morgadim merece essa e outras distinções, assim como outros elementos do grupo Voz de Cabo Verde, que marcou a sua época de forma profunda. Morgadim é um amigo especial e sempre que nos encontramos acabamos por falar dos bons e maus momentos que passamos juntos na nossa carreira artística”, confessa Toi d’Bibia, um músico que já reformou o seu instrumento, mas que se mostra satisfeito por ver que outros músicos continuam o legado do Voz de Cabo Verde.

São os casos do baixista Nolito Pinheiro e do pianista Chico Serra, que ainda carregam o nome do agrupamento aos ombros. Amigo íntimo e companheiro de palco do homenageado, Nolito Pinheiro considera merecida a distinção atribuída a Morgadim e diz esperar que figuras como Chico Serra e Toi d’Bibia também possam seguir a mesma via. “Continuo a tentar manter o legado do Voz de Cabo Verde de pé, porque, como diz Toi d’Bibia, uns perdem os postos, outros assumem os lugares. É uma grande responsabilidade manter vivo esse incontornável agrupamento, que marcou gerações com as suas músicas.”

Considerado um dos melhores pianistas cabo-verdianos, Chico Serra elogiou a atitude de Jorge Carlos Fonseca, pois, para ele, Morgadim deu e continua a dar um grande contributo para o enriquecimento do património cultural cabo-verdiano. “Foi graças a ele que entrei para o Voz de Cabo Verde. Lembro-me de ter recebido uma carta dele em 1967 a convidar-me para o grupo, porque precisavam de um pianista. Juntei-me ao grupo no ano seguinte. E devo realçar que nem nos conhecíamos”, relata Chico Serra, para quem homenagear Morgadim não deixa de ser um acto de reconhecimento pelo legado criado por Voz de Cabo Verde, um grupo que já foi distinguido pelo ex-Presidente Pedro Pires.

KzB

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