O caminho do Meio: a busca pela harmonia entre extremos

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Uma única harmonia comanda a composição do todo através da combinação dos princípios mais contrários [Aristóteles]

Por: Arlindo Nascimento Rocha*

Hoje, mais do que nunca, a busca pela harmonia pessoal tornou-se um objetivo global, pois, em virtude do acelerado processo de desenvolvimento tecnocientífico, entramos num processo contínuo de desumanização. Falta-nos o domínio, o equilíbrio e a empatia com os outros, para que possamos viver nessa aldeia global em harmonia. Esse processo tende, paradoxalmente, a conduzir-nos a experimentar situações extremas em busca de um equilíbrio que há muito tempo perdemos. Mas, essa prática não é tão recente!

É nas tradições antigas bem antes de Cristo e do Cristianismo que encontramos os primeiros exemplos tais como: Buda 566/486 a. C., e Confúcio – 55/479 a.C., no Oriente e Aristóteles – 384/322 a.C., no Ocidente. Neles também é possível identificar atitudes e práticas sobre como usar o Caminho do Meio para conciliar tais extremos nocivos a qualquer ser humano.

Sidarta Gautama, ou Buda “o desperto”, foi ele próprio um tipo de “extremista” em períodos diferentes da sua vida e descobriu que os extremos não nos ajudam a tornar despertos. Aos 29 anos, ao cruzar a cidade, Buda deparou-se com a miséria, o sofrimento, a velhice a doença e a morte até aí desconhecido por ele. Essa experiência trágica levou-o a uma profunda crise existencial. Abandonou a vida luxuosa e foi buscar respostas para o sofrimento humano. Aos 40 anos, depois de anos de autoindulgência seguido por um árduo ascetismo religioso, ele tornou-se totalmente iluminado enquanto estava sentado em baixo de uma árvore de bodhi.

Buda afirmou que os extremos não conduzem, em si, à iluminação. Esses extremos são ilustrados na infelicidade que vemos no ocidente materialista e entre praticantes de religiões fanatizadas e o hedonismo americano que produz demais e consome demais. Cada um desses extremos acusa o outro de diabólico. O Caminho do Meio de Buda nos ajuda a evitar esses extremos pela prática da moderação em nossas próprias vidas e da compaixão pelo sofrimento alheio. Ele nos ensina a não usar nossas diferenças como base de apegos negativos, como o ódio.

Qual é o Caminho do Meio de Buda? O caminho do meio é a reverência pela santidade da vida: a vida de cada um, a vida das outras pessoas, a vida da natureza e todas as inter-relações extensivas e intrincadas. Entretanto, para a coexistência harmoniosa com os outros, precisamos “coexistir” harmoniosamente connosco. Por isso, Buda pensa nas Quatro Nobres Verdades, que constituem na teoria e na prática de tal coexistência harmoniosa, pois, sua filosofia era racional, empírica, ou seja, científica. Então cada um pode testá-la.  

Primeira Nobre Verdade é que a vida engendra o sofrimento, ou seja, todos sofrem: cristãos, muçulmanos, ateus, agnósticos, etc. o sofrimento é uma verdade inegável da existência humana…

Segunda Nobre Verdade diz que o sofrimento tem suas causas, ou seja, todos os fenómenos estão sujeitos às leis de causa e efeito. Os ciclos de sofrimento humano, a luta, a dor, o desgosto, a lamentação, o desespero, o arrependimento, a doença e a morte – cada um tem sua causa…

Terceira Nobre Verdade diz que a causa do sofrimento podem ser eliminada, pois, o sofrimento humano desaparece quando suas causas são eliminadas, abrindo caminho para a harmonia: da tristeza para a felicidade, do desgosto para a alegria, da lamentação para a celebração, do desespero para a esperança, do arrependimento para a realização. Tudo é fugaz e temporário… 

Quarta Nobre Verdade indica o caminho para se libertar do sofrimento. Buda aponta um conjunto de práticas explícitas para a realização desta tarefa através do Caminho Óctuplo, pois, existem oito etapas de práticas para a diminuição do sofrimento, ou seja: a compreensão correta (entender o sofrimento), o pensamento correto (ter boa vontade), a palavra correta (entender o poder das palavras), a ação correta (fazer as coisas com moderação), o modo de vida correto (ganhar a vida de maneira prestativa), o esforço correto (encarar o desafio de maneira construtiva), atenção correta (presença da mente e consciência das emoções) e a concentração correta (desenvolver poderes mentais da atenção, visualização, da compressão, da compaixão que levam a serenidade e tranquilidade). 

 Isto é em parte o que explica o fato do Budismo ser mais do que uma religião, pois, qualquer outra religião depende do poder externo para a salvação  ou para a redenção. O Budismo não depende de poderes externos, pois, em vez disso, mobiliza recursos que estão dentro de cada um. O caminho do Meio mora dentro de cada um, e o Budismo desperta para ele.

Esta é uma das razões pelas quais o Budismo pode ser considerado como a mais acessível dos universalismos, em maior harmonia com uma ampla abrangência das aspirações espirituais ocidentais, cada vez mais distantes do Deus transcendente, mas, preocupados com a universalidade da ética, da harmonia, da solidariedade face ao hiperindividualismo contemporâneo.

Rio de Janeiro, 16/09/2019.

*Doutorando em Ciência da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Bolsista CAPES).

Sugestão de leitura:

MARINOFF, Lou. O caminho do meio. Trad. de Paulo Andrade Lemos e Márcia Sobreiro. – São Paulo: Editora Record, 2008. 

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