Obras na ribeira de Chã d’Alecrim: Engenheira Sónia Morais questiona silêncio da Electra

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As construções que estão a ser erguidas na ribeira de Chã d’Alecrim em São Vicente continuam a suscitar enorme preocupação e desconfiança aos mindelenses. Depois do Movimento Sokols e de António Sabino, especialista em Hidrologia de Bacias Hidrográfica, agora é a vez da engenheira Sónia Morais vir a público questionar o silêncio da Electra, empresa onde trabalhou 34 anos e que fica no “caminho das águas”. Por esta razão, assegura Morais, a empresa de produção de energia e água já foi muito fustigada pelas enxurradas provenientes da zona de Chã d’Alecrim, situação que a obrigou inclusivamente a quebrar paredes para evitar que a sala de comando fosse inundada.

Segundo Sónia Morais, ao longo dos anos acompanhou com apreensão várias chuvadas a partir da Electra na Matiota. Uma das experiências mais traumáticas aconteceu em 1984, data em que esta ilha recebeu uma das maiores precipitações da sua história. “As enxurradas causaram enormes estragos um pouco por toda a ilha de São Vicente. A cidade do Mindelo ficou completamente alagada. Circulava-se em botes na Praça Estrela. A rua de Lisboa tornou-se intransitável. As enxurradas que vieram de Chã d’Alecrim invadiram a Matiota e praia da Laginha. Na Electra enfrentamos uma situação grave. As águas empurravam as paredes da sala de comando, onde havia um dessalinizador novo. Tivemos de quebrar uma parede para abrir caminho para as águas e assim evitar maiores danos”, recorda.

Felizmente, não obstante os enormes prejuízos, a produção agrícola naquele ano foi boa, prossegue esta nossa entrevistada, realçando que Monte Verde, Mato Inglês e Lameirão cobriram-se de verde e a produção de legumes, verduras e frutas foi bastante positiva. Perante a experiência vivida, a Electra teve de tomar medidas para se proteger. Assim foi erguido um muro nas instalações da Matiota e, a montante, foram feitas obras de correcção torrencial. “Uma das razões para se erguer o muro foi diminuir o impacto das enxurradas na Electra porque as instalações são sensíveis. Os problemas reduziram-se, mas continuamos atentos. Por isso fiquei preocupada quando soube das obras naquela ribeira. Tive de ir ver pessoalmente e fiquei apavorada. Construir naquela ribeira é um perigo para estas pessoas em particular, mas também para toda a população. Não compreendo como é que alguém aceita erguer uma casa naquele local”, desabafa.  

Acto criminoso das autoridades

Para esta nossa entrevistada, licenciar ou vender terrenos na ribeira de Chã d’Alecrim é um acto (quase) criminoso da parte das autoridades. Mas, diz, o silêncio também é. “Não sei se os terrenos foram doados, vendidos ou licenciados e nem se foi feito, a priori, algum estudo de impacto ambiental. Também desconheço se há alguma alternativa para o escoamento da água das chuvas. Ninguém sabe de nada, mas entendo que é preciso prestar esclarecimentos aos munícipes, até porque vai chover”, afirma.

Sónia Morais entende que as autoridades, caso do Ministério da Agricultura e Ambiente, são chamadas a fiscalizar e a se posicionar. Também os deputados nacionais por São Vicente e a Ordem dos Engenheiros têm uma palavra a dizer sobre esta questão, na sua perspectiva.

Constânça de Pina

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2 COMENTÁRIOS

  1. Uma moradora de Chã de Alecrim, toda aprensiva hironizou: Estou curiosa para saber o contrato que a Câmara já assinou com Deus para estar a licenciar obras nesse sítio. Um outro morador de Chã de Alecrim, natural de Santo Antão, interroga:” E se Deus afrouxar o nabo daquele tanquinho um pouquinho mais? Um outro morador exclama, isso é uma loucura,ninguém entende, que Deus nos proteja! Perante toda essa angustia dos moradores um grupo de munícipes já deu entrada de um requerimento na Assembleia Municipal a pedir que o assunto seja discutido na reunião do dia 15 de maio, isso se os Eleitos Municipais do MPD que são a maioria viabilizarem o pedido. Se não viabilizarem o pedio vão carregar por toda a vida a responsabilidade política e moral de tudo o que vier a acontecer por causa de uma chuvada forte.. Esperemos que dispam a camisola dos partidos e se assumam como representantes dos todos os munícipes. No dia 15 de maio vamos todos à Assembleia Municipal para ver o possicionamento deles..

  2. O titulo deste artigo é da inteira responsabilidade do jornal.Para que fique claro não “questionei o silêncio da Electra”, apenas relatei problemas vividos na instalação de dessalinização com as enxurradas. Também não afirmei que foi esta empresa quem construiu os muros nem os trabalhos de correcção torrencial, que foram obras do Governo e que, entre outras razões, serviram para proteger as instalações de produção de electricidade e água da ilha de São Vicente. Ficam as correcções.

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