Onde pára o nosso orgulho?

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Por Artur Brito

Analisando todo este imbróglio à volta do nacional de futebol, em que o maior prejudicado de toda a incompetência da FCF é o Club Sportivo Mindelense, leva-me a crer que ainda estamos perante a ponta do iceberg. Já dizia o velho ditado que “nada acontece por acaso”.

Procuro encontrar motivos para justificar toda esta falta de respeito para com o Clube da Rua da Praia, uma referência do futebol nacional, clube com maior palmarés em Cabo Verde, esbarro-me numa resposta que indiscutivelmente está na base de toda essa tramoia. “São Vicente”. Parece-me existir uma armada avassaladora a todos os níveis para derrubar a alma do sanvicentino, numa clara tentativa de aniquilar tudo que se produz de bom nesta ilha. Tenho a nítida convicção que, para alguns, São Vicente nos últimos tempos tornou-se num alvo a abater. Já nem dá para disfarçar.

Recuando um pouco ao passado, lembro-me de figuras incontornáveis do Mindelense – como Mané Djodje, Cadine, Djack, Gute, o treinador Txida, entre outros – leva-me à seguinte questão: Quem ousaria desrespeitar desta forma como está sendo feita a “instituição” Mindelense ou qualquer outro clube de São Vicente?

Aos jogadores e dirigentes actuais, pessoas que merecem todo o nosso respeito e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em prol do desporto na ilha, diria que estão sendo vítimas da conjuntura a que vive São Vicente. A ocasião obriga-me a fazer esta pergunta, pois se calhar encontraremos a melhor via para sacudir toda essa pretensão levada a cabo por muitos, pese embora infrutífera, de querer tornar-se São Vicente “num sóc d’pancada, ondê k cada um krê trá se pnic”.

São Vicente foi desde sempre um viveiro de intelectuais. São Vicente habituou-nos a ter grandes líderes. Daqui saíram os melhores quadros e sempre estivemos na linha da frente nas grandes decisões da vida do país. Então por que “cargas d’ água” havemos de baixar a cabeça perante os outros?

Estou convencido que isso nunca irá acontecer. Não pretendo com esta minha singela opinião culpabilizar quem quer que seja, da situação em que encontramos. Cada ilha está no seu processo, assim como São Vicente. Escolheram os seus líderes para os representar, e também usar as armas que acharem apropriadas. Bem ou mal, com ou sem carácter, isto são contas de outro rosário.

Neste aspeto, São Vicente só tem de culpabilizar-se a si própria, começando pelas suas escolhas, pelas pessoas que designou para serem seus representantes, isso sim. De quem é a culpa quando recebemos a visita de uma Ministra e esta na sua primeira intervenção diz que estamos num ritmo de desenvolvimento bastante acelerado e que devemos abrandar? Se o próprio Presidente da autarquia, nosso representante maior, em quem a maioria dos Sanvicentinos confiou os destinos da ilha, vem dias depois a público dizer que não ouviu tais afirmações, quando dele esperava-se outra reação.

Um outro senhor vem à comunicação social dizer que irá deslocar o Museu do Mar de São Vicente para São Nicolau e nenhum comentário do nosso Presidente; só não conseguiu tal intento porque sentiu a reação dos mindelenses. Fez-se uma mega manifestação na ilha no dia 5 de Julho, por ocasião da Independência de Cabo Verde, e o Primeiro-Ministro viu-se obrigado a deslocar à ilha numa visita não agendada e do nada tira da cartola uma série de projetos para a ilha do Monte Cara. Claro a ocasião assim o exigia e da mesma forma como já nos tinha habituado na campanha eleitoral, não passou de promessas.

Mas, como para ele há sempre soluções, recebe uma ajudinha do nosso Presidente a dizer que agora sim São Vicente iria sair do marasmo e que novos investimentos iriam aparecer. Ainda a recuperar-se da manifestação, julga-se ter ficado confuso e, numa operação de cosmética, decide dedicar o Festival da Baía das Gatas aos Jovens, quando estes realmente necessitam é de emprego. Entre outras situações que poderia estar aqui a enumerar se não fosse do conhecimento de todos.

Voltando à questão do Nacional de Futebol, pergunto aos Clubes de São Vicente se vale a pena ter uma AFRSV para os representar junto da FCF? Pelo que percebi não foi nem tida nem achada nesta novela da FCF. Mais uma vez sou obrigado a afirmar. Culpabilizemos sim as nossas escolhas.

Na minha opinião, poderíamos ter sido melhores nas nossas escolhas, nas nossas atitudes, e quiçá fazermos uma análise profunda das nossas ações. Assim, se calhar daríamos um contributo maior à nossa ilha que tanto precisa de cada um de nós.

 

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