Parabéns Escola de Samba Tropical

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Chego cedo à Praça Dom Luis e vou assistindo à entrada dos figurantes do Escola de Samba Tropical. Todas e todos bem vestidos, quase todas bonitas e outras de arrasar. “A continuação de um povo lindo está garantido” – “ai, se está”, é o que consigo captar na conversa de um casal de alemães.

A Elsamarley passa por mim com ar sério, mas não perde a oportunidade de me dar um empurrão. Está linda, linda, o alemão, que tinha ficado boquiaberto que tratasse de boquifechar-se, porque dali para a frente tudo ia aquecer. Procuro a Jéssica Monteiro que veio dos States para desfilar no Samba. Não a encontro por nada deste mundo. Nem ela nem a Jans Nobre, que só consigo apanhar na Rua Machado. Dança para a filmagem da praxe. E que bem dança a Jans, “cujo cinturão também tem mel”.

Tendo sentido que as alas estavam formadas e a bateria aquecida, o Presidente grita do carro de som que só aguardavam sinal para o avião arrancar. Posiciono-me perto da saída do Pont d’Agua onde ficam as estrelas. Quero apanhar a entrada da Rainha de Bateria, ainda consigo, lá vem ela com um segurança colado ao corpo. Entra a matar, é bonita, dengosa e está à-vontade. Os primeiros minutos são passados a adaptar-se à batucada até que… um gay com uma “fusca” danada vem dançar com ela. Assim como o rapaz chegou, assim saiu. O segurança de Lita resolveu a coisa… nem tive tempo de ver como.

E lá fomos nós ao assalto dessa bela morada. No ar, por mais que se cantasse e dançasse, ondas de suspiros, eram os 30 anos da Escola e a homenagem à Cesária Évora, nossa ultima romântica, cuja voz é uma inquietante reencarnação do sentimento sobre a razão, da imaginação sobre o espirito critico que nos conduz a um tipo de sonanbolismo poético. Como Cize já não há mais raridades assim, nem parecidas, nem imitações, dirá iguais.

O Presidente Daia deu-me um crachá para circular por onde quisesse. Fiz muitos metros com um jornalista francês que me disse que “nunca assistiu a nada como o Carnaval do Mindelo”. “Parece que há um grito contido na vossa garganta. Ninguém ouve esse grito e ele está lá. É como se vocês vivessem amordaçados e depois, num código não decifrado, alguma coisa acima das aparências, muito além das evidências do quotidiano surgisse no Carnaval”.

Eu sei, a cidade que Mindelo já foi um dia é o farol de Alexandria que só se acende no Carnaval…

Vamos depressa apanhar a homenagem ao Mestre Mick Lima, reconhecimento do grupo e seus pupilos. Uns choram , outros batem palmas; recebo uma mensagem do Mick, passo o móvel ao Presidente Daia que se emociona. Carnaval também é isto. Mesmo dentro da corrente mais fanática da linha rígida dos adoradores da noite, somos todos gente de bem e sensíveis, como quando a cidade vivia esquecida de uma praga chamada progresso…

Mas, adiante, que o cordão vai avançando. Vou a correr, a Janete Évora, neta da Cize, parece puxar uma multidão atràs. Está linda e canta com emoção a música do grupo. Antes dela, ainda, a Comissão de Frente, talvez a melhor que já vi até hoje, apenas traída pontualmente pelo carro-som, faz vibrar as pessoas, mostrando a origem da Cesária na noite. João e Jana desesperam, falta o som. “Ê bá devagar, bsote ê de Cruzeiros…’ , grito-lhes a rir, sei que não me ouviram.

Entro pelas alas, os seguranças vão-me buscar, está tudo impecável, o grupo pára, não sei porquê. Assim como eu, muitos companheiros, já estam “c’xixi pertod” e ouvi a única reclamação da noite: onde é o local reservado a alívios renais prementes? Não havia ou pelo menos não vimos e, sair do asfalto e conseguir voltar, seria muita sorte. E bexiga não perdoa pelo que tivemos de fingir não ver um companheiro que, dado o último aviso, desaguou nas calças de uma rajada só… Poucos viram pois o coitado saiu a correr.

O cansaço começa a tomar conta dos figurantes e logo depois de contornar a Praça foi ordenada uma pausa de 15 minutos. É incrível o nível do acabamento das roupas. Reis, Rainhas, tudo muito bonito. Lita senta-se no chão, faz alongamentos, muitos bebem água ou sumo.

Entre o público estão os cartazes com muita sátira, provocantes, vejo “Sou Honesto como um Deputado… cuidado com a tua carteira”; “Deus gosta de ti… um dia ele virá“; “1º lugar, Bancada / 2º Tabanca Várzea  / 3º Chaves de S.Nicolau”… Para não falar de duas raparigas com top, uma com ‘PI’ e a outra com ‘SSA’ no peito. Ou “Bô ta sabinha, quase bô ê fet c’farinha de Moave.”

Vejo atrás do público rapazes sentados em cadeiras, com cavaquinhos, violões, percussão, mesas de plástico entre eles, copos e garrafas em cima das mesas e, à roda da roda cada vez mais gente a abraçar-se como quem não se vê há muitos anos porque é assim que os mindelenses se abraçam.

Todas as semanas fico a saber porque moro em S. Vicente, mas esta semana soube mais uma vez porque vou continuar a morar aqui. É aquele momento em que o tesão se torna amor… Para o público não há nunca unanimidade em relação aos grupos. Unanime é a torcida por um Carnaval em que as lágrimas sejam só de alegria.

PARABÉNS, ESCOLA DE SAMBA TROPICAL.

 

 

 

 

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