Posto, logo existo: o predomínio da imagem e anemia simbólica

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Por Arlindo Rocha

Atualmente vivemos uma situação paradoxal! Quanto mais cresce o império da imagem mais definha a presença do símbolo, ou seja, o predomínio ditatorial da imagem é um indicador da decadência da palavra e, mais ainda do símbolo. As consequências são numerosas, mas a primeira delas é a opressão do símbolo pela imagem. Isso acontece em parte graças ao crescimento da fotografia e da televisão. A ‘civilização da imagem’ tornou-se a expressão incontestável para a visualização total da realidade, contrariando assim, o Cogito, ergo sum cartesiano, ou seja, Penso, logo existo que ganhou um novo significado Posto, logo existo, pois, no mundo virtual das redes sociais, a vida é editada e reeditada dando aos usuários a possibilidade de apresentarem-se da forma como queiram.

A teoria do conhecimento levou-nos a acreditar que o conhecimento era regido pelo ideal da imagem, ou seja, conhecer era reproduzir, uma espécie de espelho da realidade tal qual ela era. Porém, com o avanço tecnológico, a metáfora do espelho foi substituída pela fotografia. Então, o conhecimento passou a depender de uma máquina fotográfica que registra com beleza, neutralidade e detalhe tudo o que está diante de si, isto é, tudo o que se conhece. Atualmente sabe-se que essas concepções tornaram-se ilusões, uma vez que, não existe tal espelho e tal máquina, pois, o conhecimento humano é mais complexo e menos mecânico e o ambiente social e cultural introduz em nosso aparato conceitual elementos que tornam pouco confiáveis à mera representação. Nem mesmo uma câmera de vídeo pode expressar esse secreto anseio de conhecer, de reproduzir em imagens o que temos diante de nós. Apesar disso, nós nos tornamos numa civilização presidida pelo anseio de ver conceitualmente, e quanto mais claro, melhor. Daí a autoridade da imagem, que vale mais do que mil palavras. Assim chegamos a apoteose! Queremos dizer, contar, expressar tudo em imagem. A ponto do que existe em imagem, (re)editada, não existir na realidade.

Uma primeira impressão pode nos levar a acreditar que a civilização da imagem significa uma espécie de entronização da imaginação. Porém, é ao contrário! Pois, o momento que se vive marca o processo de desvalorização do imaginário em geral e do simbólico em particular. O imaginário também é desvalorizado pela avalanche de imagens e de publicidade que supera a realidade e que faz a simulação passar por realidade. O ‘ser’, nestes tempos do capitalismo consumista, equivale ao ‘aparecer’. Assim, o homo virtualis, que vive da permuta consumista, não tem que imaginar ou evocar nada, somente assimilar as sensações que o rodeiam. Por isso, em sua obra A vida do símbolo- a dimensão simbólica da religião Mardones, elabora uma série de questões na tentativa de compreender o que acontece em nossa sociedade:

Onde fica aquela realidade mais além daquilo que se vê? A cultura da imagem não é um perigoso inimigo do imaginar e um esquecimento de um ouvir e de um escutar? Não estamos confundindo o ver interior com ver exterior? Não estamos esquecendo da lição poética e a da sabedoria, que representam a realidade sem despoja-la de uma profundidade e mistério?

Segundo ele, não há dúvida que, o resultado desse processo enaltecedor da imagem que chega  até a suplantação da realidade, acontece porque no caminho já perdemos a própria realidade. Esse funcionamento instrumentalizador da realidade, que deu tantas contribuições à sociedade e ao ser humano, enlouqueceu ao pretender ser dono de toda a realidade. Confundir a manipulação das coisas com a posse de sua realidade tem sido o pecado dessa nossa modernidade tardia. O predomínio da cultura de imagem nos roubou a interioridade, pois, o anseio de vê-la toda nos levou ao desejo de mostrá-la toda, inclusive o interior do sujeito. Quisemos trazer a luz a introspeção e esta converteu-se em exibicionismo. A falta de cuidado em salvaguardar o rasto de mistério do ser humano e da sua interioridade desembocou na trivialidade. A exterioridade da imagem do indivíduo devora sua interioridade.

Vivemos uma época do voyeurismo e nos convertemo-nos em mirões. A falta de profundidade interior desencadeia a sede de conhecimento desse continente oculto. Essa interioridade fascina, mas não temos paciência para penetrar nas regiões delicadas e ‘sagradas’ dos outros. Ansiamos por conhecermo-nos e conhecer os outros, mas, não dedicamos tempo suficiente a essa tarefa tão delicada. Substitui-se o conhecimento da interioridade pela iluminação violenta das imagens e dos comportamentos obscuros dos seres humanos. Assim, as imagens captam assassinos ou suicidas diante das câmeras e a pornografia mostra até o último detalhe anatômico, mas em vão, porque não se capta nada do segredo do sujeito.

A cultura da imagem, que não sabe restringir a clareza e a revelação total e incorre no erro do vazio. Em vez de mostrar o sujeito, fotografa suas partes íntimas. A  pessoa está toda aí, plena, clara e virtualmente, mas não verdadeiramente.Talvez hoje estejamos vivendo uma nova virada sociocultural no olhar midiático, pois, já não somos observados pelo Big Brother Orweliano, já não é a tirania do sistema, que vigia os nossos movimentos, agora somos nós que olhamos que para o Big Brother a fim de obter algo dele. Assim, a imagem converteu-se em instrumento a serviço da sociedade de sensações e veículo de excitação, transformada em mecanismo de fuga de si mesmo e do mundo. Por isso, cresceu desmedidamente nesta era da ‘globalização’ cultural. Alguns dirão que se trata de uma cultura trivial de aparência juvenil e de gozo de sensações. A ‘sociedade das sensações’ tem aqui sua realização mais relevante, mas ela ameaça com sua ditadura o equilíbrio mental e o bom desenvolvimento do homo sapiens. Não está claro se, por traz da avalanche de imagens icônicas, cinematográficas e televisivas de vídeo e internet, temos capacidade imaginativa maior ou se nossa imaginação ficará anestesiada.

Uma das consequências indesejadas e até perversas desta anestesia da imaginação é sua incidência no mundo moral: ao reduzir a pessoa à categoria de consumidor passivo, rouba-se-lhe a capacidade reflexiva e impede-se-lhe de qualquer discernimento. O espectador digere, sem estrutura crítica aquilo que a tela lhe oferece. Dá na mesma ser uma tragédia na África, um atentado na Europa ou no Oriente Médio ou uma receita de cozinha. Estamos a um passo da contemplação dos assim chamados  ‘olhos mortos’, sem critério e sem sentido. Talvez Bauman tenha razão ao falar de ‘modernidade líquida’ na qual os indivíduos não possuem critérios de escolha racional, quando o aparentar/aparecer ‘e mais importante e valorisado do que o ser. Os meios de comunicação geram e criam as condições objetivas para que o reino da imagem se converta no reino da manipulação. Essa visão apocalíptica da ‘civilização da imagem’ não é difícil que se imponha, pois, estamos diante de um esvaziamento do espaço público e do desinteresse pela cidadania, pois, a pessoa fica trancada no círculo da mesmice, ou seja, “enclausurada” na imanência positivista das redes sociais.

O processo de inundação do mundo pela imagem equivale a uma crescente marcha para a superfície das coisas. Quando esse fluxo prolifera, o feixe de sensações estimula uma gratificação imediata. Ficamos presos ao imediatismo e ao dado, sem poder passar para o sentido das coisas. Nessa situação sociocultural do predomínio da imagem, estamos a um passo do fechamento da transcendência. Não há capacidade no sujeito para romper o emaranhado de imagens e representações que o agarram e o retém na frívola imanência. Em nossa cultura, a imagem tem a pretensão falaciosa que outrora, pertencia a ciência: ser a única desveladora da realidade, representada em imagens e informações verdadeiras e incontestáveis.

A visão da civilização da imagem nos leva a uma conclusão arriscada, mas precisamos formulá-la levando em conta vários pensadores: para Jürgen Habermas é uma modernidade tardia ou segunda modernidade, Ulrich Beck denomina-o de pós-modernidade, enquanto que Zygmunt Bauman chama-o de modernidade líquida. Ela é apresentada nas visões críticas e também nas estereotipadas, como uma sociedade com um núcleo e algumas estruturas duras, sólidas e condensadas constituindo um sistema. Nesta sociedade os indivíduos voltam-se totalmente para si e seus interesses, pois, são inimigos declarados de qualquer preocupação pelo bem comum. Nesse sentido, o predomínio da imagem coloca um problema de fundo cultural, político civilizatório, educativo e de doação de sentido, pois, até há pouco tempo, a denominada cultura ocidental era presidida pela palavra, pois, a herança Greco-hebraica era verbalista e logocêntrica. O discurso racionalista era a maneira normal de transmissão de significado e sentido. Então, é legítimo questionar: o que acontece quando a imagem toma lugar da informação quando a palavra é subordinada a imagem? Uma tarefa fascinante, mas diante do qual só podemos fazer conjeturas, contudo, estamos assistindo a uma mudança de sensibilidade que penetra até as raízes da comunicação e do sentido, além dos rumos da nossa história civilizatótia.

Em suma, a torrente velocidade e sedução da produção de imagens castram a imaginação e reduzem o indivíduo a um consumidor de imagens, e mero reprodutor, em vez de exercitador/produtor de seu imaginário, e assim, sua atividade criativa fica seca e vazia. Estamos caminhando perigosamente em uma cultura simbolicamente empobrecida, uma cultura literalmente in-transcendente, sem saída para a transcendência e o mistério.

Rio de Janeiro, 15/05/2019

*Doutorando na Pontifícia Univeridade Católica de São Paulo (Bolsista CAPES).

Sugestões de leitura

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad., de Plíneo Dentzien. – Rio de Janeiro: Zahar Editora, 2001.

MARDONES, José Maria – A vida do símbolo – a dimensão simbólica da religião. Trad., de Euclides Martins Balancim. – São  Paulo: Paulinas, 2006.(Coleção espaço filosófico).

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