Projecto “Pérola Negra” cancelado – promotor denuncia bloqueio e ameaça queixar-se do Governo

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O grupo belga 7 Senses, promotor do empreendimento turístico e imobiliário Pérola Negra previsto para nascer na Zona de Desenvolvimento Turístico Especial da Praia do Calhau, desistiu de implementar este importante projecto na ilha de São Vicente. É que, três anos após o envio do dossiê para aprovação pelas autoridades nacionais, ainda sequer conhece o valor do terreno que lhe foi atribuído. Igualmente não obteve uma resposta concreta sobre a proposta de deslocalização do Observatório Meteorológico do Calhau, condição essencial para o início dos trabalhos de construção. Chateado, o empresário Eric Claeys fala em “actos intencionais de obstrução” que terão impedido a aprovação do projecto e promete apresentar uma queixa junto das autoridades luxemburguesas contra o Governo de Cabo Verde.

A paciência do promotor deste empreendimento turístico, que previa a criação de 1.400 postos de trabalho directos e outros tantos indirectos na ilha do Monte Cara, já se esgotou. Ao Mindelinsite, Eric Claeys, que falava a partir de Luxemburgo, disse que há pelo menos três anos aguarda por uma resposta para poder avançar com a obra, mas sem sucesso. “Gastei mais de dois milhões de contos em estudos e elaboração do projecto do empreendimento Pérola Negra. Estamos a falar de um grande projecto. O 7Senses Group pretendia investir em São Vicente à volta de 95 milhões de euros. No entanto, apesar da nossa insistência, as autoridades não nos dão uma resposta clara e o projecto nunca sai do papel”, desabafa.

Para tentar desbloquear o processo, Claeys conta que viajou 14 vezes para Cabo Verde, sendo a última em Março de 2017, com o intuito de exigir uma decisão definitiva da Cabo Verde Trade Invest e do Governo. “Todas as vezes que pedimos uma resposta, as autoridades alegaram que precisavam fazer mais estudos, analisar melhor o dossiê… O problema é que já lá vão três anos. Somos investidores e, se não conseguimos erguer o projecto em São Vicente, vamos para um outro local. Não podemos ficar eternamente à espera de uma decisão”, acrescenta este promotor, que fala em tentativas de recebimento de “luvas” para que o seu projecto fosse desbloqueado, mas sem especificar nomes.

 Indícios de corrupção

“Decidi que nunca iria pagar luvas ou dinheiro extra para aprovarem o projecto que, do meu ponto de vista, é importante para São Vicente. O empreendimento seria uma referência na ilha, no país e na África em termos de qualidade e de impacto económico. É que, para além dos 1.400 postos de trabalho, iria abrir outros tantos por causa da demanda por serviços logísticos – lavandaria e outros – que teriam de ser prestados por empresas locais”, pontua, realçando ainda que o empreendimento iria alavancar outros sectores.

Caso por exemplo da aviação civil, com a modernização do Aeroporto Internacional Cesária Évora (AICE) para permitir que a infra-estrutura pudesse operar mesmo em condições adversas. “Com a entrada em funcionamento do Pérola Negra, São Vicente passaria a receber voos dos quatro cantos do mundo. Isto porque, para viabilizar o empreendimento, iríamos trabalhar com vários operadores, que fariam ligações directas entre a ilha e os países emissores de turistas. Seriam mais recursos a entrar em Cabo Verde porque teríamos mais companhias aéreas a viajar para o país. Teríamos também mais serviços de táxi e outros”.

Apontada como um obstáculo inicial ao desenvolvimento do projecto tanto pelo Governo do PAICV como pelo o do MpD, a deslocalização do Observatório Oceanográfico para uma outra área seria assumida pela 7Senses Group, segundo esse investidor. “Sabemos da importância do centro e queremos que este continue a prestar um serviço de qualidade ao país e ao mundo. Por isso mesmo assumimos os custos da deslocalização do Observatório”, confirma essa fonte. No entanto, Claeys acredita que outras razões impediram o aval ao projecto. “Tenho provas de que havia pessoas que queriam dinheiro por fora, e isso não admito. Por isso vou denunciar o Governo de Cabo Verde ao Governo luxemburguês, que tem disponibilizado avultados recursos dos contribuintes para apoiar o país”, ameaça.

O Mindelinsite confrontou a Cabo Verde Trade Invest com a demora na aprovação deste projecto e possível desistência do promotor, mas não foi possível ultrapassar a barreira do “front office”, que alegou ser um processo confidencial e, por isso, não pode avançar qualquer informação, salvo se o jornalista estiver munido de uma procuração passada pelo promotor. “A única pessoa que poderá prestar informações é o representante do grupo em Cabo Verde, o senhor Alexandre Novais, que está por dentro deste processo porque temos trocado vários e-mails com ele”, disse-nos esse funcionárioAbordado, o arquitecto Alexandre Novais confirmou os contactos com a Cabo Verde Trade Invest, mas garantiu que até à data não recebeu nenhuma resposta concreta, nem mesmo do pedido para se quantificar os terrenos atribuídos ao promotor para construir o empreendimento.

Entretanto, para uma fonte ouvida por este diário digital, este é mais um projecto que Cabo Verde deixa “escorrer” por entre os dedos, por pura inércia das autoridades. “Há uma clara má vontade das autoridades em aprovar este projecto. Nunca vi um empreendedor ser tão maltratado. Talvez isto esteja a acontecer porque houve uma tentativa de se desviar este projecto para Praia, mas o promotor não quis porque desde o princípio optou por construir este investimento na Praia Grande. Agora o argumento é que não dá para ser neste local por causa do Observatório Meteorológico. Acho que estamos a vender ´banha de cobra`. O mais caricato é que a CMSV, que deveria estar a lutar para trazer este projecto para S. Vicente, fica apática a ver a ilha ser prejudicada”.

Manter a essência do vulcão

O empreendimento turístico e imobiliário Pérola Negra seria o maior projecto desta natureza construído em São Vicente. O promotor garante que a sua construção seria com recurso a matéria-prima local, sem pisos altos e que o vulcão do Calhau seria o atractivo, a essência, dessa obra, como forma de rentabilizar esta força da natureza. O desenho esteve a cargo de arquitectos envolvidos em projectos mundiais de renome como a Torre de Londres, o Burj al Arab em Dubai e a Torre Agbar em Barcelona, na Espanha.

A ideia intrínseca ao Peróla Negra era fazer com que fosse mais do que uma estância turística. “O objectivo era transformar o empreendimento num sistema integrado, gerido pelo Seven Senses, um dos maiores operadores mundiais de hotéis de alta gama ”, especifica Claeys, não sem antes realçar que, para além da construção física, a estância seria complementada com um projecto de agricultura, que iria garantir produtos frescos.

O empreendimento seria composto por sete partes distintas: um boutique-hotel com 70 suítes e 30 vilas, um spa holístico e um centro de bem-estar, 60 vivendas e 180 apartamentos. Ainda um centro médico com tecnologia avançada que vai oferecer cirurgias plásticas, cuidados cosméticos, tratamentos anti-envelhecimento, reabilitação e pós-operatório. O centro médico teria suporte técnico do professor Philip Blondeel, da Universidade de Ghent, Bélgica, um dos mais renomados cirurgiões plásticos da Europa. Previa ainda a construção de uma marina, com capacidade para receber entre 15 e 20 embarcações e um campo de golfe com 18 buracos.

Constânça de Pina

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4 COMENTÁRIOS

  1. E assim estamos em Sao.Vicente …mais.uma.vez dependentes de estudos do governo central……comentario de ultima hora::: deixem nos em paz!

  2. Eu sou pela denúncia pública dos corruptos. Quem conhece corruptos deve denuncia-los. Mas isso só vale se houver tribunais com alguma credibilidade. Esse senhor investidor faz bem em denunciar Cabo Verde fora porque cá dentro não funciona. Já não há paciência para a impunidade. Todos reclamam, ninguém denuncia. Quem denuncia fica mal visto. Afinal das contas isso corresponde a sermos masoquistas. Permitimos que quem nos prejudica o faça sem obstáculos. E assim vão “progredindo” na vida e subindo nos rankings enquanto os parvos padecem. Ser decidido pelo governo central ou pelo municipal não tem diferença já que a CMSV não ligou pela causa. Haja saco…

  3. O problema em Cabo Verde é náo haver justiça. Eu estou dez anos á espera da decisáo do tribunal em S. Vicente para desembarco da minha obra em S. Pedro implementada no meu terreno, aprovada pela Camara Municipal e embargada pelo CV Investimento por abuso de poder. Embora o Tribunal em S. Vicente e o proprio CV Investe reconhecem que eu esteja no meu direito uma decisáo fica nas cavetas desse tribunal que náo se mostra capaz ou interessado de resolver esse tipo de problemas. Como esse senhor Belga, também penso que se denunciar esse tipo de abuso perante as instituiçoes internacionais seja a unica soluçáo. Desejo esse senhor muita sorte e paciencia.

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