Protesto do Derby contra a Micá suscita suspeita sobre identificação de Ken

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Um protesto do Derby contra a Académica do Mindelo, por causa do uso do guarda-redes Ken, está a trazer de novo à baila a crónica suspeita de falsificação da identidade de jogadores de futebol em S. Vicente. Desta vez, o Derby ultrapassa a barreira da especulação e coloca o dedo mesmo na ferida, ao deixar claro no documento remetido à Associação de Futebol de S. Vicente que o jogador em causa tem dois nomes e dois documentos (Bilhete de Identidade e Passaporte) com dados pessoais diferentes.

No ponto seis, o clube protestante não poderia ser mais explícito, ao declarar categoricamente: “Kevin Jorge Ramos Sousa e Keven Jorge Sousa Ramos são a mesma pessoa”, numa inequívoca referência ao atleta da Académica do Mindelo. Trocado por miúdos, o Derby afirma que Ken tem duas identidades e anexa “provas” ao protesto na expectativa de ganhar a causa.

“Juntamos ao processo um conjunto de provas, que não têm a ver propriamente com documentos de identificação. Mas, pessoalmente, tive acesso às fotocópias do seu Bilhete de Identidade e do Passaporte e aquilo que pude constactar é que há duas coisas que não batem certo: num deles consta o nome Kevin Jorge Sousa Ramos e noutro o nome muda para Keven Jorge Ramos Sousa. Além disso, o BI apresenta uma data de nascimento, que é diferente de a constante no Passaporte”, afirma o jurista João do Rosário, autor do protesto formulado pelo Derby Futebol Clube e remetido à ARFSV no dia 24 de Março. A queixa refere-se ao encontro entre as duas equipas em questão, a contar para a sétima jornada do regional de S. Vicente, cujo resultado foi um empate sem golos.

Questionado se tem a plena certeza de que a pessoa presente nos documentos é mesmo Ken, o advogado do Derby responde afirmativamente. Como diz, o atleta, que já foi chamado à selecção nacional, é sobejamente conhecido dos adeptos do futebol mindelense. Indo mais ao pormenor, o jurista revela que os dois documentos apresentam a mesma fotografia, os nomes dos pais são iguais, mas as datas de nascimento diferem. “Objetivamente foi o que vi. Se houve falsificação de algum documento isso não sei. Agora, é um facto que os dados do Passaporte e do BI não coincidem”, reafirma João do Rosário.

Conforme apurou Mindelinsite, enquanto no Bilhete de Identidade consta que o dono do documento nasceu a 6 de Outubro de 1989, no Passaporte a data de nascimento passa a 6 de Junho de 1994, ou seja, uma diferença de cinco anos de idade entre os dois casos.

Para o Derby, toda a celeuma está relacionada com o facto do ex-atleta do Batuque Futebol Clube ter jogado em Portugal pelo Nacional da Madeira. Como fez questão de dizer no seu protesto, é do domínio público, “porque largamente noticiado na comunicação social nacional e portuguesa”, que esse jogador teve problemas em solo português “relacionados com a sua identificação e que levariam à rescisão do seu contrato com a equipa pela qual ele alinhava.” Problemas esses que, na perspectiva do Derby, obrigaram Ken a regressar a Cabo Verde e à ilha de S. Vicente. Na cidade do Mindelo, prossegue o citado documento, o atleta tentou fazer a sua inscrição pela Académica do Mindelo, o que lhe foi negado pela anterior direcção da Associação de Futebol de S. Vicente, liderada por Júlio do Rosário. “Aliás, já antes tentara também a sua inscrição pelo Boa Vista Futebol Clube (Santiago Sul) o que também lhe foi recusado”, acrescenta a equipa protestante.

Entrando propriamente na motivação do protesto, o Derby afirma que, perante a pretensão da Micá de inscrever o categorizado guarda-redes, a própria AFSV solicitou à Federação Cabo-verdiana de Futebol o certificado internacional de Ken, no passado dia 30 de Novembro de 2016. Porém, a FCF terá recusado o pedido, “explicando que havia discrepância entre os dados de identidade registados na FCF e os que lhe foram remetidos” pela ARFSV.

Para o Derby, esse tal desencontro tem tudo a ver com os dados oficiais de identificação do atleta, porquanto era conhecido em Portugal como sendo Keven Sousa Ramos (Passaporte) enquanto que em Cabo Verde apresenta-se com o seu nome original de registo, isto é, Kevin Ramos Sousa (Bilhete de Identidade). “Por essa razão – concluem os derbianos -, ele e a Académica do Mindelo nunca conseguiram juntar ao processo da sua inscrição o seu certificado internacional.”

Inscrição sem certificado internacional

O ponto-chave do protesto resulta da ausência no processo de inscrição de Ken na ARFSV de um certificado internacional, que lhe é exigido por ter jogado antes no Nacional da Madeira, em Portugal. Para o Derby, esse documento é fundamental, pelo que a sua inexistência pode derrubar a licença atribuída ao jogador para disputar o campeonato de S. Vicente com o emblema da Micá. É que, na perspectiva do autor da queixa, Ken só podia inscrever-se no regional de futebol pela via da transferência já que na época anterior (2015-16) representou um outro clube no estrageiro. Para dar consistência a essa questão, o Derby recorre-se do artigo 30º do Regulamento Geral da FCF, que estabelece que a inscrição de um jogador só acontece pela via da transferência, quando tenha representado uma outra equipa dentro ou fora do país. E conclui que o jogador em causa nunca obteve esse documento, seja um emitido pela FCF ou pela sua congénere de Portugal. Por essa razão, o Derby entende que Ken não está habilitado para participar nas provas oficiais em Cabo Verde.

Reclamação “normal”

Chamada a capítulo para o centro da polémica, a ARFSV, agora gerida por uma Comissão de Gestão, encara o protesto do Derby como algo “normal”, que costuma acontecer no mundo do desporto. Segundo João “Djony” Pires, é natural que uma equipa apresente uma queixa quando considera que houve um acto menos legal em relação a uma determinada matéria. No caso concreto, o responsável da ARFSV esclarece que esse organismo recebeu um pedido de inscrição da Académica, que apresentou os documentos exigidos pelo Regulamento da FCF: Boletim de inscrição, licença desportiva, certificado de exame médico e fotocópia do Bilhete de Identidade.

Esse processo, realça o nosso entrevistado, deu entrada na vigência da anterior direcção, o cartão pessoal de Ken foi inclusivamente assinado pelo então presidente da ARFSV, tendo a actual comissão apenas liberado a licença, uma vez que o pedido de inscrição já se encontrava retido na secretaria havia mais de sessenta dias. Explica Pires que a lei permite que, havendo demora na emissão do certificado internacional, uma associação ou a própria federação pode passar uma licença provisória ao jogador, que é o caso de Ken. “Havendo negação, a licença é suspensa; havendo aprovação, a licença torna-se definitiva”, esclarece o responsável da ARFSV, que nega entrar na polémica em torno da identificação (falsa ou verdadeira) do atleta.

Para todos os efeitos, diz Pires, o jogador entregou fotocópia do seu Bilhete de Identidade. O resto, salienta, ultrapassa a competência da associação e entra noutra alçada. Para a ARFSV, acrescenta Pires, o que conta são os factos e não a especulação.

Micá de consciência tranquila

O protesto do Derby está a aquecer os bastidores do campeonato regional de S. Vicente, que já se encontra na recta final, com a Académica do Mindelo isolada no comando da prova. É que, mesmo perante a ameaça de perder pontos por causa de Ken, a Micá tem estado a alinhar o guarda-redes. Esta atitude, segundo Manuel Cabral, presidente do clube dos estudantes, é a prova clara de que esse grémio está ciente de que tem a razão do seu lado.

Garante Cabral que Ken foi inscrito de forma legal, tanto assim que a ARFSV aceitou o processo. “Por isso não entendo o protesto do Derby”, critica o responsável da Micá, para quem a equipa adversária está a imiscuir-se num assunto que não é da sua competência ao afirmar que o jogador em causa tem duas identidades. “Ninguém aqui é a Polícia Judiciária (PJ) para vir trazer esse tipo de suspeita.”

Ken, segundo Cabral, apresentou fotocópia de um documento verdadeiro no seu processo de inscrição e não tinha que entregar nenhum certificado internacional, uma vez que o nome suscitado pelo Derby no protesto não coincide com o seu. Para a equipa estudantil, o “Keven” que aparece no documento, e que o Derby diz ser o atleta que jogou em Portugal, não é a mesma pessoa. “Temos o nome correcto do Ken, um jovem nascido em 1989, enquanto o Derby apresenta um jogador que nasceu em 1994. Portanto, são duas pessoas diferentes”, conclui Manuel Cabral, que foi abordado por Mindelinsite no final da partida entre a Académica e Ribeira Bote e que cimentou a liderança da Micá no campeonato. Nesse jogo, Ken foi titular e, segundo Cabral, a convocatória do guarda-redes prova que o clube está de consciência tranquila.

Até o momento da entrevista, a Académica ainda não tinha debatido o assunto com o guarda-redes. Segundo Cabral, o caso estava a ser tratado a nível jurídico, porque o clube tinha até esta Quarta-feira, 12, para contestar o protesto. O jurista Armindo Gomes defende igualmente que a Académica fez uma inscrição normal, aceite pela AFSV. Além disso, o clube utiliza outro argumento: o facto de o Derby não ter provado que Ken tinha uma inscrição internacional.

Caso sob a alçada da FCF

Numa situação de normalidade, o protesto seria analisado pelo Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de S. Vicente, enquanto primeira instância. Porém, a ARFSV está a ser gerida provisoriamente por uma comissão ad hoc e que sequer dispõe neste momento desse órgão. Deste modo, o protesto foi encaminhado directamente para a alçada do Conselho Jurisdicional da FCF. Por outras palavras, este caso não deverá dar espaço a recurso, independentemente da decisão agradar um ou outro clube.

Na posse dessa informação, este jornal electrónico abordou o jurista Álvaro “Vave” Cruz enquanto presidente do Conselho Jurisdicional da FCF. Este negou no entanto prestar quaisquer esclarecimentos sobre o incidente porque, como deixou no ar, já não está vinculado à federação. Deste modo, tentamos um contacto com a direcção da FCF, mas até esta não tivemos sorte.

Salamansa entra na “dança”

O alegado uso irregular de Ken está também por detrás da decisão da Salamansa de meter um protesto, praticamente com os mesmos argumentos do Derby. Segundo Micau, presidente do clube, a ideia é fazer com que a Académica perca os pontos conquistados nos jogos com a Salamansa por ter alinhado o referido guarda-redes.

No fundo, a intenção dos protestantes é retirar pontos á Académica em todos os jogos em que Ken esteve na baliza, com o pretexto que ele está inscrito de forma irregular. A acontecer isso, a Micá daria o adeus ao título e provavelmente o Derby teria mais hipóteses de representar a região de S. Vicente no campeonato nacional, juntamente com o Mindelense, campeão em título.

“Se isso acontecer, muita coisa agora virá para o ventilador”, assegura, no entanto, um adepto da Micá. Este levanta o véu ao dizer que, se Ken está ilegal, ele não será o único jogador nessa situação no campeonato de S. Vicente.

Segundo João do Rosário, o objectivo do Derby não é reacender a polémica em torno da falsificação de documentos de jogadores. O interesse do clube, realça o jurista, é apenas protestar um jogo devido ao uso de um elemento que, na perspectiva do clube, está mal inscrito porque não juntou ao seu processo um documento fundamental: o certificado de transferência internacional.

O presidente do Derby, Carlos Lopes, junta a sua voz ao reafirmar que o propósito do clube é sobretudo desportivo. No entanto, para Lopes, a Académica deveria ter a consciência de que a inscrição do jogador poderia suscitar esta polémica. “A verdade é que fomos forçados a tomar essa medida. Repare-se que a anterior direcção evitou entregar o cartão do jogador porque estava ciente dessa irregularidade. A própria FCF teve o cuidado de chamar a ARFSV atenção para essa discrepância”, diz Lopes, que vai mais longe ao revelar que o Passaporte que Ken usou quando foi convocado para a selecção nacional tinha uma identidade diferente daquela que aparece agora no seu Bilhete de Identidade.

Segundo Lopes, o Derby apresentou o protesto porque tem interesse directo no campeonato enquanto clube que luta pelo título. E, na sua opinião, uma equipa da envergadura da Académica, que também tem os olhos postos no título, deveria pugnar-se pela legalidade.

Este jornal tentou ouvir o guarda-redes Ken, tendo feito um contacto telefónico e uma abordagem pessoal, esta última no estádio Adérito Sena. Porém, o jogador negou falar connosco sobre o assunto. Mesmo assim este jornal continua aberto a ouvir a sua versão dos factos, quando ele bem entender.

Outra pessoa contactada a propósito desta polémica é Júlio do Rosário, ex-Presidente da ARFSV, cuja direcção caiu devido ao afastamento de outros membros. O ex-dirigente mostrou-se disponível a conceder-nos uma entrevista o quanto antes para falar da sua intervenção no processo de Ken e que, conforme deixou transparecer, terá algo a ver com a queda da direcção por ele dirigida.

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