São Nicolau é também Cabo Verde

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Por Nelson Faria

Uma das pessoas que marcaram a minha vida, desde sempre, foi o meu avô paterno. Muito do que sou devo a ele, Júlio Manuel da Conceição. Ele de São Nicolau, com características de um Homem especial que era. Sábio, inteligente, forte, determinado, vertical e com firmeza de carácter assente em princípios e valores inabaláveis. “Ninguém tava montal na catchoss”.

A verdade, a solidariedade, a bondade e um sentido de humanidade pouco visto nos tempos de hoje. Desapegado, racional, frontal e defensor de causas humanitárias, de pessoas. Ele tinha uma preocupação com a harmonia, com o conhecimento, com o respeito de e por todos, mormente, pela diversidade. Apesar de o ter visto partir relativamente cedo, lembro-me também que um dos seus melhores amigos, um bravense, nosso vizinho, pessoa muito afável e simpática, Nho Jon d’Brava, avô de grandes amigos meus, que muito marcam as minhas memórias infantis.

A diversidade das ilhas em casa e na vizinhança sempre foram uma realidade boa de Mindelo.  Realidade essa que fez e faz Mindelo ser o que é. No fundo, como cabo-verdianos, somos todos filhos e netos de gente das outras ilhas e do mundo que nos rodeia. Eu sou um dos Mindelenses com várias origens.

Infelizmente, o que foi tenderá a não ser. Da forma que cada vez mais estamos limitados ao mundo e as outras ilhas, tendemos a ser o que restarmos do intercâmbio com a vizinha ilha de Santo Antão. Bem, se calhar estarei a ser dramático. Mas é uma constatação de que já vi Mindelo mais plural e com maior abertura para levar, trazer, receber, ficar e dar as ilhas e ao mundo o que tem de melhor: a hospitalidade, o bem-receber, a cultura, as praias, o lazer festivo, as potencialidades económicas e uma alegria bem-humorada que caracteriza esta ilha.

Se São Vicente está assim, o que não reclamaria o meu avô e o Nhô Jon d’Brava sobre a realidade das suas respectivas ilhas de nascença? Felizmente, as vozes das ilhas, da Brava e de São Nicolau fizeram-se ouvir e não deixaram de dizer o que lhes vai na alma sobre as agruras que têm passado. Em democracia, estas manifestações devem ser consideradas normais e nunca deveriam tentar silencia-las. Aliás, um político inteligente sabe que é nessa fonte que deve beber para elaborar políticas que sirvam, de facto, os interesses de todos, mormente dos que estão deveras atrasados no processo de desenvolvimento. Equidade precisa-se.

Na última manifestação em São Nicolau, regista-se a oportunidade, a inteligência do acto, o civismo e acima de tudo a determinação das gentes em verem o desenvolvimento da ilha consentâneo com as potencialidades que tem. Imperou a causa da luta e a lucidez da população sobre o que lhe aflige. Ainda bem. Que assim seja em todas as ilhas, que os cidadãos sejam os motores de políticas justas e adequadas ao desenvolvimento equilibrado e sustentado, porque somos todos Cabo Verde.

Sendo que Cabo Verde é também diversidade e afinidades entre ilhas, naturais outras conjunturais, o interesse do todo acima de outros que tem imperado. Cabo Verde é cada um com a sua singularidade e todos juntos na igualdade. Bem-haja as gentes de São Nicolau, que o futuro seja de prosperidade da ilha, porque merecem. 

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