Sonho mindelense

554

Por Rocca Vera Cruz

Da bola de tripa de tchuck à bola de marca, qualquer bola contem sonhos. Os sonhos de uma vida melhor se confundem com o apoio ao time, e se agigantam, confundindo-se com a ilha. É S. Vicente encarnado em futebol, vestido de vermelho e branco, comemorando a vitória. A bola conduz o sonho, a vitória ultrapassa as linhas do campo e invade corações e mentes.

Alienação? Que seja, mas insubstituível como motivo de alegria diante da miséria, das dificuldades, da violência, da falta de trabalho… O futebol é um espectáculo deliciosamente eficaz quando provoca e mostra olhos cheios de lágrimas, braços que se agitam, sorrisos escancarados que deixam para trás todas as censuras, lançando quase todo mundo numa dimensão onde só a vitória interessa.

A bola rola. Com ela rolam e voam sonhos de muitos mindelenses, sonhos de vitória no campo mágico da Fontinha, onde o Mindelense se destaca no jogo de cintura, no saber jogar posto ao serviço da felicidade sanvicentina.

Gente que se mobiliza, muitos na Fontinha, outros em casa ou na Rua da Praia, que é do povo de S. Vicente. Gente sorrindo em farrapos ou camisola nike, gente que sofre, vibra, chora na iminência de derrotas, mas também gente que “ganha a jogada”, “marca” golos, levanta a taça, sentindo o gosto da vitória.

Bandeiras encarnadas viram belos panos passando a envolver cabeças e corpos suados ao som da batucada. Rostos pintados se misturam na euforia, crianças, jovens, adultos, velhos se pintam no ritual, pagão mas sagrado, do êxito conquistado no relvado da Fontinha.

MINDELENSE PENTA CAMPEÃO, numa conta fácil de fazer até mostrando apenas os dedos de uma mão, que se agitam, empunham bandeiras, que apertam outras mãos, igualmente mindelenses, igualmente campeãs. Vitória do MINDELENSE. S. VICENTE dos abraços, beijos, danças das comemorações difíceis de igualar por outros.

É hora de procurar a vitória, MINDELENSE. Se te deixarem, claro.

Aproveita, S. Vicente, expluda, mande tudo num grito contido nas gargantas e que se liberta na catarse de uma ilha bela, generosa e apaixonada.

Amanhã? É outro dia. O dia-a-dia do trabalho, das obrigações, do sofrimento, da miséria, dos kassy, parece estar a anos-luz deste momento saboroso e inesquecível.

Hoje é o dia do sonho que a bola conduz, voando por cima de cada bairro de Mindelo, sobre as casas de tambor ou habitações luxuosas, sobre Che Guevara e a fralda; perfume francês ou catinga, cachupa de cevada c’cavala ou bife de caneca, grogue de R’birinha ou água de tumbarina, voando sobre tudo, enfim.

Hoje é dia de um sonho embalado pela conquista, um sonho proporcionado pelo Presidente Nhela, pelo Rui Alberto, pelo capitão Toy Adão, Papalelê, Djinkelly, Erickson e todos os outros homenageando Cadine, Djobla, Baessa e Manê Djodje.

Mindelense pentacampeão!

Os sonhos voam com a bola. E porque os sonhos jamais acabam, deixem-nos ao menos sonhar.

 

(Visited 608 times, 1 visits today)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here