Tédio e vazio existencial: existe algo mais perturbador?

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Por Arlindo Rocha

“A única coisa que nos consola das nossas misérias é a diversão. E, no entanto é a maior das nossas misérias.” [BLAISE PASCAL]

Em nenhum outro momento da história da humanidade, o homem teve tantas opções para divertir-se. Por isso, não há quem não procure lazer e diversão, pois, criou-se uma ‘indústria’ do divertimento que está a serviço de uma enorme ignorância. Sendo assim, não se abandona pequenos prazeres a não ser por prazeres maiores, já dizia Blaise Pascal em pleno século XVII. Paradoxalmente, essas “mil e uma opções” de “fuga de si mesmo” não libertou o homem do tédio e do vazio que o corrói. O tédio, é aquele fantasma que fica atrás da porta o tempo todo, como afirma Pondé. Por isso, nada mais alegra o homem quanto à diversão. Mas, tirando-lhe essa possibilidade ele cai no tédio e passa a sentir o seu nada.  

De acordo com o autor da obra Filosofia do tédio, (1999), Lars Svendsen, o problema do tédio é uma das grandes questões, e sua análise deveria revelar algo importante sobre as condições em que se vive atualmente. Por ter sentido na pele as mazelas do tédio por algum tempo, fez com que aumentasse sua curiosidade, já que o tédio também é um problema filosófico. Albert Camus, provavelmente não concordaria com ele, pois, para este, só há um problema filosófico sério, ou seja, o suicídio. Nesse aspecto, julgar se a vida vale a pena ser vivida ou não é responder a questão fundamental da filosofia, afirma. Paradoxalmente, Fernando Pessoa não concordaria com ele, uma vez que, para este, o tédio é tão radical que não pode ser superado sequer pelo suicídio. Não entrando no mérito da assertividade desses autores, pode-se, no entanto, destacar a visão Heideggeriana, segundo a qual, o tédio é uma névoa escura e silenciosa que desliza para cá e para lá nos abismos da existência.

Então, partindo da experiência vivida, Svendsen expôs sua visão e investigou a de vários pensadores que refletiram sobre o assunto, tendo posteriormente chegado a conclusão que, encontramos em alguns deles pensamentos interessantes relativamente ao tema. O tédio, segundo ele é uma experiência existencial fundamental, pois, o homem é abandonado a si próprio, e dessa forma, aqueles que o enfrentam conhecem melhor a si mesmos do que os que fogem buscando diversões. Diante desse cenário, instala-se o paradoxo, pois, o tédio leva a diversão e vice versa, ou seja, não há fuga possível, uma vez que, ele sempre nos alcançará. Por isso, o filósofo norueguês Jon Hellesnes (1939) questiona: o que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio?

Quase todos os que abordaram filosoficamente esse tema, consideram-no como um mal existencial. Schopenhauer o descreve como, anseio insípido sem nenhum objeto particular; para Kafka, era como se tudo o que ele possuísse lhe tivesse deixado; Moravia diz que o tédio é como uma doença das próprias coisas que faz toda a vitalidade murchar e morrer; Garborg o classifica como um frio mental; Dostoievski o descreve como aflição indefinível; Kierkegaard afirma que, Deus estava entediado, por isso, criou Adão que também ficou entediado. Então, Eva foi criada, e, desde então o tédio penetrou no mundo e cresceu em proporção exata ao crescimento da população; e, para Nietzsche, até os deuses lutavam em vão contra o tédio. Entretanto, ao contrário desses dois últimos autores, o tédio, pode ser considerado um fenômeno recente, assevera Svendsen, pois, no paraíso o tédio não teria tido lugar, uma vez que, o espaço estava preenchido por Deus.  

Na passagem anterior, observa-se que vários pensadores, provavelmente atormentados pelo tédio, tentaram defini-lo, interpretá-lo e explicá-lo. Porém, uma das mentes mais cintilantes que refletiu sobre o assunto, foi Blaise Pascal, que associa o tédio a problemática teológica. Ele acredita que o homem sem Deus está condenado à diversão, e, nesse aspecto a ‘vida torna-se uma fuga da vida’, que, sem Deus, é fundamentalmente um nada. Por isso, toda a tentativa de escapar do tédio através das diversões, é sinónimo de fuga da realidade. Nada é mais insuportável para o homem quanto estar no estado de pleno repouso, sem paixões, sem ocupações, sem diversão, sem esforço, afirma Pascal.

Outro filósofo que aborda este tema é Kant. Ele explora o tédio no contexto da filosofia moral, pois, é um problema ligado ao desenvolvimento cultural. Kant afirma que no tédio o homem é tomado por uma abominação ou náusea diante da sua própria existência, por isso, um bom argumento para as diversões baratas é o momento mori – ‘lembra-te que vais morrer!’. As suas reflexões são uma clara antecipação da teoria de Thomas Mann, que faz uma descrição fenomenológica do tédio, e sugere que a cura é mudar frequentemente os hábitos, uma vez que, os novos hábitos são as únicas formas de animar a vida. Por outro lado, a problemática descrita por Mann, já havia sido defendida antes por Kierkegaard, que via no tédio a raiz de todo mal. Ele o descreve como um panteísmo demoníaco e afirma que não conhece expressão mais forte, mais verdadeira, pois, somente o semelhante conhece o semelhante.

Entretanto, para este último autor, a sensação de tédio é para o homem refinado, uma vez que pressupõe um elemento de autorreflexão e de contemplação no tocante à própria situação no mundo. Essa ideia é corroborada por Leopardi, que afirma que o tédio é reservado às almas nobres, e que, a multidão, pode na melhor das hipóteses, sofrer de simples ociosidade. Essa atitude elitista do tédio encontra-se também em Nietzsche. Este vê nele a desagradável calma da alma que precede aos atos criativos e afirma que ele é o próprio hábito do trabalho que agora se faz sentir sob a forma de uma necessidade nova e adicional. O tédio será tanto mais forte quanto mais forte for o desejo de trabalhar. Para escapar da vida tediosa o homem trabalha além das suas necessidades ou inventa novas formas de diversão. Mas, ao fatigar, e não tendo nenhuma necessidade de trabalhar ou divertir é atacado de novo pelo tédio.

Em Schopenhauer, o homem pode escolher entre sofrimento e tédio, uma vez que a vida oscila entre ambos, por isso, se o homem consegue interromper o tédio, o sofrimento retornará. Portanto, o homem quando não sabe mais o que fazer sucumbe ao tédio. Então, quando as metas não são alcançadas, o resultado é o sofrimento; quando são, o resultado é o tédio. Por isso, na falta de satisfação no mundo real, o homem cria um imaginário, dando origem assim, as várias religiões como tentativa de escapar do tédio.

Em suma, Milan Kundera, nos coloca no cenário concreto da cotidianeidade do tédio, e o classifica em três categorias: o tédio passivo (quando alguém boceja); o tédio ativo (quando alguém se dedica a um hobby); e, o tédio rebelde (quando um jovem quebra vitrines de uma loja). Essas categorizações estão presentes em nossa atual sociedade. Então, responder a questão inicial: “O que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio”, tendo em conta o que foi exposto, não é tarefa difícil como parece! A resposta é simples e objetiva, NADA, ou seja, o TÉDIO é um dos piores males da humanidade, mas, ajuda o homem a (re) conhecer-se. Então, é preciso ficar em silêncio tanto quanto se pode, pois, só assim, o homem (re) conhecerá quem realmente ele é.   

Sugestões de leitura:  

SVENDSEN, Lars. Filosofia do tédio. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.

PASCAL, Blaise. Diversão e tédio. Trad., de Mário Laranjeira. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011. – (Coleção ideias vivas).    

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