Topade de Nhá Antoninha, campeão dos mares

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Por David Leite

“Adivinha qual é”, disse-me Tôpade, desafiando-me a acertar no barco que lhe servia de casa.

Os veleiros motorizados e outras embarcações de recreio pareciam multiplicar-se a perder de vista à medida que avançávamos pelo atracadouro de Versoix, uma cidadezinha encantadora nas margens do lac Léman (lago Genebra, na Suíça). Mas um deles ostentava no casco as cores de Cabo Verde, num mastro uma bandeirinha discreta: ora aí está!

Onde quer que fosse, Tôpade fazia questão de levar consigo a bandeira das ilhas, tal um talismã, um sinal distintivo que o ligava ao seu umbigo. Foi nessa procura das raízes que ele me procurou, vai para uns 20 anos, no meu trabalho em Paris. Conversámos muito, e ofereci-lhe uma bandeira. Ganhei um amigo de coração limpo e fino trato, afável e alegre com todos, um gentleman. Éramos ambos de Ponta do Sol, lá onde “a vila dorme e o mar murmura”.

Viesse ele a Paris ou fosse eu a Antibes, ficávamos na casa um do outro, mesmo estando o outro ausente. Nos nossos serões que se alongavam madrugada fora, falava, com certa euforia, de ir viver para Cabo Verde. Era o sonho da sua vida. Não por desamor do mundo ou para cumprir algum destino de emigrante, nada disso! Em Versoix pareceu-me o meu amigo uma pessoa realizada, de bem com a vida: o seu trabalho era a sua vocação, bons amigos tinha ele, a vida no porto era simpática e festiva. No aconchego da sua casa flutuante, embalada pelas suaves ondulações do lago Genebra, desabafou comigo a sua plenitude: – “Nunca me senti tão bem como aqui na Suíça”. E citava, com um sorriso malicioso, os amigos que a brincar lhe “invejavam” a sorte:

– “T’es un p’tit malin, toi, t’as tout compris à la vie”.

Nos dois dias que passei em Versoix, vi um Tôpade acarinhado pela comunidade lacustre ligada às actividades náuticas. Aqui chamavam-lhe Toniô. O mesmo Toniô que eu já tinha frequentado em Antibes, cidade balnear da Côte d’Azur onde ele vivia antes de ir juntar-se a Pauline, jovem suíça que conheceu em… Cabo Verde! Caboverdeano tão popular e tão querido no seu meio, como Tôpade nunca vi! Por onde passasse deixava a sua marca de simpatia, estampada num sorriso perene e natural que seduzia tudo e todos.

Contagiante era também a humildade com que contava a sua história de mnine d’praia d’bôte que um dia abalou num iate e foi adoptado, em França, por uma família de Cherbourg. Uma história pungente e palpitante – “conto contigo para a escrevermos um dia”, dizia-me.

Na ponte do seu navio onde passámos a noite, o meu filho, então 13 anos, escutava empolgado a história do navegador solitário, contada na primeira pessoa. Fascinado com o pequeno “capitão de areia” que se fez homem nas azáfamas do mar e virou capitão do seu próprio barco e destino. Sozinho no exíguo habitáculo de um iate, velejando por esse mar fora em diferentes “Route du rhum” e outras grandes competições transatlânticas.

O miúdo, extasiado, fazia perguntas de mares e barcos, e nele se reflectia o meu amigo que aos 13 anos só tinha um sonho: dar pinote num navio! Não no imaginário dos miúdos de agora, mas em cata da vida como os de outrora! “Queres pilotar?” – perguntou-lhe Tôpade confiando-lhe o leme! E o puto, louco perdido por navios, não cabia em si de “pilotar” um iate de verdade!

E ficaram os dois bons amigos… de verdade. O meu amigo guardava esse quê de criança que às vezes nos falta quando viramos “gente grande”.

De-riba de água do mar ou em terra firme, Tôpade impressionava: homem do mundo, educado por uma família francesa, exprimia-se bem. Falava inglês com fluência. Muitas terras conhecia o homem dos mares, mas sonhava voltar à SUA terra. Os planos que não tinha para se instalar em S. Vicente! Ergueu casa, mandou barco e carro, e contava abrir um centro náutico e de assistência à navegação de recreio.

Com vida e saúde, dizia. Cigarro nunca mais, álcool, já nem socialmente… e não é que vem um AVC e leva o rapaz! Um AVC! Assim, sem mais nem menos, aos 52 anos. Bolas que não somos nada nesta vida! E o campeão dos mares com tantos projectos… e eu que pensava escrever sobre o intrépido skipper que hasteava a bandeira de Cabo Verde nos portos da França, das Caraíbas…

Topade irá em breve despedir-se de S. Vicente, derradeira escala na sua viagem sem retorno. Nao num barco mas numa urna! Nesta hora de despedida e de dor, peço amparem nh’Antoninha sua mãe, que ele venerava. Je suis de tout cœur avec ses enfants: Alexis (en Belgique), les petites jumelles Mélissa et Satine qui étaient la prunelle de ses yeux. Bon courage les enfants!

E a ti, meu eterno Amigo, bon vent! Até sempre.

Mantenhas da terra-longe, 28 de setembro de 2018

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1 COMENTÁRIO

  1. S. Vicente e os seus atletas são todos proscritos e mal amados não representam Cabo Verde. Queria ver se o Topad fosse um cidadão da Praia e Santiago qual era o tratamento que a comunicação lhe dava e o que o Governo fazia agora que já foi navegar nos mares do esquecimento.

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