Vicente – a festa do glorioso Benfica

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Por Rocca Vera Cruz

Um imenso mar vermelho cobriu S. Vicente, uma festa que começou discreta, bem cedo, com alguns carros a hastearem a bandeira do Glorioso, foi crescendo, cheia de nervos, até à hora da partida. Às 16h15, quando o jogo estava a começar, praticamente não havia gente nem trânsito nas ruas. S. Vicente recolheu-se para homenagear o Benfica.

Com o fim da partida, a Praça passou a ser o centro do mundo para os benfiquistas de S. Vicente e todas as ruas iam alimentando de gente aquela que é uma das maiores manifestações em Mindelo e, não tenho dúvidas, a 2ª maior festa vermelha depois do Marquês de Pombal. A Praça encheu, encheu, encheu até não caber mais ninguém. O raio de visão, que no início permitia ir até o BCA estava agora reduzido a poucos metros.

Uma enchente ao som da música estridente de vários carros, tambores, violões, pandeiros, gente com posters do Glorioso Benfica, camisolas e mais camisolas, tenho comigo uma que me foi oferecida pelo Pizzi e que me acompanha em todos os jogos.

Abraços apertados, risos, sorrisos, bandeiras, cachecóis, cartazes parodiando, principalmente, Bruno de Carvalho, Pinto da Costa, Maxi Pereira e Jesus. Levo comigo um cachecol que me foi oferecido pela Zinha, Maria Rebelo, ‘Colinho’, um adepto de outro clube diz-me “só assim vocês ganham qualquer coisa”. Praga de burro não chega ao céu, vou-me embora, ele quer é conversa.

Os carros tocavam o hino do Benfica e os sistemas de som puxavam pelos milhares de benfiquistas, milhares que saltavam e gritavam SLBBBBBBBBBB. Os adeptos, sem rouquidão, acatam o pedido de muita animação e cânticos. Apesar das fortes medidas da Policia Nacional, alguns vermelhos conseguiram levar petardos, mas tudo decorria normalmente.

Alguém resolve mandar água para o ar e vai gritando, “obrigado, obrigado, obrigado, Benfica, um dia vou-te retribuir tudo isto”. Um moço pega num megafone e grita: “Obrigado Nação Vermelha, não tenho nada para dizer, porrraaaaaaaaaaaaaaaa, a festa é de todos nós”. O homem está emocionado, um amigo, brincando, põe-lhe a mão no peito tentando medir a euforia, “medjor bô tmá mas um groguim pa calmob esse tensão” e os dois bebem directamente de uma garrafa de litro e meio. Alguns adeptos derrubam protecções que a Polícia colocou para impedir a entrada de carros para o local da festa, nada de grave. Mais uma vez o córre d’agua não vai entrar, não há-de ser nada, a festa está uma maravilha.

Do alto de um quarto do Hotel Porto Grande um turista resolve abrir uma bandeira do FC Porto. Imediatamente é vaiado com os mais feios palavrões. Alguns meteram as mãos nos calções, “esse li ê que ê bom pa bô, fdp”; “mas log um ta cmeb bo amdjer”; “mêtêl na c….”

No meio da confusão, aparece a Júlia a pedir-me “sê festa”, dou-lhe 100 paus para ela comprar uns cigarros e um copo de vinho num baloi. Afasto-me um pouco da confusão, tento ligar para o Gui e para o Atelano, mas não consigo.

Um adepto do Sporting, cheio de raiva, diz “esh gente de Benfica ê moda catchorr de Soncente, más ej capaz, mas ej pari, cambada de filhos da puta”. Um senhor que eu nunca tinha visto aparece com um livro grosso debaixo do braço, dizendo que vamos todos parar ao fogo do inferno e que isso é coisa de Satanás, um adepto do Benfica responde logo: “ah cágá , atê satanás ê  Benfica”.

Umas miúdas pedem para ser fotografadas com garrafas de “mama de mãe”, “fji de casa” e “topada”, uma delas veste um “tomara-que-caia” curtíssimo, aproveito a distracção de quem está comigo e digo-lhe “se bô quiser na fim de festa nô ta trocá camisola…”, lá foi ela a correr, rindo alto – hoje é dia de alegria!

Não provocamos ninguém e calamos a boca daqueles que diziam que o Benfica estava acabado. Apenas incentivamos os de vermelho porque o Benfica preenche os nossos corações. Cantamos o hino, trazemos no peito esse amor. As palavras se perdem ao retratar essa paixão porque é indiscritível a nossa emoção. Mais uma vitória inesquecível para a nossa colecção de títulos memoráveis. Somos do Glorioso Sport Lisboa e Benfica e orgulhamo-nos disso.

Mas a época ainda não terminou, ainda temos a Taça de Portugal pela frente. E eu tenho de entregar esta crónica à redação do Mindelinsite. Espero escrever outra quando o Mindelense ou o Derby ganharem o campeonato de Cabo Verde. E, já agora, espero ver na Fontinha todos aqueles que, esquecendo que nós somos a soma das nossas ancestralidades (…) e que somos livres de escolher as nossas opções clubísticas, espero vê-los, dizia, a apoiar o Mindelense e o Derby.

O Benfica tem tudo, só não tem …comparação!

 

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