A visão de uma organização para S. Vicente

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Por Carlos Araújo

Muitos de nós que temos São Vicente como nossa residência, e que vamos vibrando em sintonia com o ambiente interno, estamos conscientes de que esse projeto de Regionalização (MpD) de criatividade nula não traz melhorias em relação à centralização que se quer combater. Quando gritamos BASTA e falamos de autonomia estamos a dar vazão a uma necessidade não só económica mas principalmente humana. A verdade é que, nesse momento histórico, o mindelense sente a necessidade de levantar a mão para dizer que existe, que tem sentimentos e que quer ser senhor do seu autodesenvolvimento bem como participar no desenvolvimento de Cabo Verde.

É tempo de se entender que, como acontece com qualquer aglomeração humana confinada num espaço, Mindelo já atingiu a complexidade que lhe permitiu engendrar uma mente própria capaz de identificar a consciência coletiva que o norteará na procura da melhor organização que lhe fará experienciar em plenitude a vida. De se entender que a organização imposta pela Constituição não é, e se calhar nunca foi, a mais adequada para a unidade equilibrada do nosso país e é, sem dúvida, o baluarte protetor de interesses não só económicos como também de egos recalcados, infelizmente negligenciados, pelo medo de encararmos o nosso auto-retrato.

É nesse contexto que surge o Sokols, enquanto movimento da cidadania que, ao reconhecer a constituição de uma comunidade política autónoma, resolve: criar um modelo coerente e distinto de acção política, livrar-se das tradições herdadas, encarar a conflituosidade gerada pela desigualdade económica e identificar os modos como os recursos ideológicos e culturais são utilizados para poder disputar a alteração do consenso social, cultural, moral e político dominante.

Sokols é uma ideia de um  público activo que está desafiando os limites do discurso político ao trazer para o debate a problemática da legitimidade do poder e é já uma ideia que não pode ser ignorada pelos media, sob pena de porem em perigo a sua própria legitimidade.

É nesse contexto que o Sokols luta:

  1. Pela integração e preservação da identidade social das ilhas em geral e dos sãovicentinos em particular.
  2. Pela queda do centralismo que levou a uma diferenciação social grande entre o centro e a periferia e conduziu à constituição de uma comunidade política autónoma que quer livrar-se das tradições herdadas.
  3. Pelo aparecimento de uma sociedade civil activa, mobilizada na procura de novos conteúdos de modernidade para as actuais condições de desenvolvimento.

Alguns conceitos

  1. Qualquer ilha é uma região (geograficamente falando);
  2. Qualquer ilha habitada é um organismo vivo (organizado ou não);
  3. Qualquer ilha (organismo vivo) tem o seu metabolismo próprio que lhe permite crescer, eliminar resíduos e gerar energia;
  4. Qualquer ilha habitada, por ser um organismo vivo, é constituida de células já que nenhum organismo é um ser vivo se não possuir pelo menos uma célula. (familias, relações grupais, meio ambiente, patrimónios e outras organizações);
  5. A ilha não é um virus na media em que estes, apesar de realizarem muitas das funções próprias da celula viva, carecem de vida independente, capacidade de crescimento e reprodução próprios das células pelo que não são seres vivos;
  6. Em termos organzacionais sabemos que os sistemas abertos funcionam melhor e apresentam uma maior criatividade e que qualquer sistema aberto necessita de um certo grau de autonomia.

Região – Regionalização

 

As regiões existem quer estejam ou não organizadas. A Regionalização deve ser vista como uma forma de organizar ou reorganizar as regiões (Ilhas), dando-lhes a possibilidade de fazerem parte de sistemas mais complexos e avançados, normalmente impostos por necessidades económicas. A Regionalização não é uma divisão mas sim uma adição, não é uma mistura mas uma combinação.

A Centralização

  1. Concentra a riqueza num pequeno grupo de favorecidos que gravitam a volta do poder.
  2. Gera um centro onde a circulação do capital é elevado.
  3. Ela facilita a corrupção.
  4. Gera uma periferia formada por uma poeira trabalhadora perfeitamente sonâmbula
  5. Gera colonias periféricas frágeis e facilmente sugadas pelo poder do buraco negro central.
  6. Gera perdas enormes devido a falta de controlo.

Obs: Não são os nossos binóculos que estão desfocados. É o centro que está desfocado.

Regionalização proposta pelo MpD

  1. Introduz uma maior burocracia (o aumento de organizações vai implicar um aumento exponencial da complexidade)
  2. Deixa zonas de conflito (relacionamentos pouco clarificados entre CM e governo local)
  3. Não leva em conta todas as motivações envolvidas (não aceita a diferenciação social que permite a constituição de uma comunidade política autónoma e não vibra em sintonia com o ambiente interno das ilhas)
  4. Apresenta falhas e contradições (duas regiões para Santiago levaria a necessidade de pensar em ter ilhas que não são regiões)
  5. Falta de clareza (não está bem expresso a forma de relacionamento entre os diferentes poderes)
  6. Mais propensa a corrupção (descentraliza e multiplica o poder, enquanto baluarte protetor de interesses vários)
  7. Menor controlo (mais governantes, maior complexidade)
  8. Não é um sistema aberto (não tem autonomia)
  9. É um sistema mais lento (uma organização pesada)
  10. Não garante o fim do Centralismo (que pode permanecer incólume perante um território periférico dividido em pequenas parcelas autogestionárias, mas insignificantes como poder politico.
  11. Pouco criativa (continua baseada nos mesmos pressupostos pelo que só vai conseguir mudar as peças para o mesmo jogo)

Obs: A proposta de Regionalização continua assente no pressuposto de que nós pensamos e vocês executam. Trata-se de uma organização ainda baseada no pressuposto de uma relação mestre-escravo, relação essa que a alma mindelense não aceita. Ela não leva em conta e sequer ousa discutir a necessidade que os mindelenses sentem de participar no desenvolvimento do país bem como de poder nortear o seu auto-desenvolvimento.

Autonomia

Um conceito que não nega a ilha a sua capacidade de vida independente, bem como a sua capacidade de crescimento e de reprodução próprios dos organismos vivos. A ilha não pode ser vista como um vírus. Um conceito que exige uma organização estável, equilibrada e leve (qualquer corpo atinge o seu estado de equilibrio estável na posição de energia minima).

A visão de uma organização para S. Vicente

A proposta de organização:

Uma descentralização de todos os serviços que dizem respeito à ilha; Um governo, eleito pela população da ilha, com autonomia para propor e executar a politica de desenvolvimento da ilha; Um ou dois senadores nomeados pela assembleia e que representarão a ilha no senado; A Câmara Municipal passará a ser gerida por um administrador de carreira ou nomeado por concurso; Um governo central forte, mas leve e constituído por algumas secretarias de Estado; Os serviços não centralizáveis pelo Estado coadjuvam as respectivas secretarias de Estado.

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