A ti Mindelo, cidade abençoada, parabéns!

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Não consigo explicar como é que em poucos anos a febre de caminhar invadiu Mindelo, seus calçadões, avenidas, parques e estradas. Sem perceber bem porquê também fui engolido por essa multidão de ‘andadores’, de cultores da boa forma ou simples cumpridores de ordens médicas.

Democracia pura, jovens e velhos, nacionais e estrangeiros, ricos e pobres, lindas meninas esculpidas e gordas cansadas, a partir das 5h00 lá estão elas e eles, quase sempre em grupo; devo ser o único que vai sozinho, oportunidade ideal para a velha e saudável prática de observação de pessoas e coisas. Fazer uma caminhada manhã cedo é ver Mindelo desfilar.

Lá vêm aquelas três velhinhas que nunca se calam, animadas, fingindo que ganham a guerra contra o reumatismo. ‘Bom dia’, dizem, ao se cruzarem com um grupo de senhores, estes parecem rijos e orgulhosos dos raros músculos que ainda não cederam à lei da vida.

Há gente que vem para se cansar, caras feias de esforço, as testas enrugadas espelham preocupação, mas também encontro gente cuja cara alegre parece festejar a beleza da vida, auriculares nos ouvidos, corpos e almas embalados pela pureza de Mindelo. Intriga-me o que estarão dizendo os jovens ao telemóvel a essa hora, falando baixo, não partilhando segredos. Outros gritam tentando convencer pelo tom de voz e não pela solidez de argumentos.

Jovens e menos jovens, saindo de discotecas, beijam-se no parque da Enapor, a música do rádio de um guarda derrama-se no ar induzindo essas almas ainda sensíveis a construir poemas, a mergulhar no sonho, a se tornarem escandalosos amantes, à vista de todos, mesmo à mercê daquela beleza do momento em que ainda não é dia mas já não é noite.

Um cão que ladra e o galo traidor parecem acordar o condutor de um carro barulhento e sem escape, que trava bruscamente, sem piedade do asfalto em frente à Shell. A potência do rádio abafa gemidos que vêm de dentro do carro. A polícia finge não ver.

Uma miúda, cara de sono, dá uma última passa num charro de haxixe e espera, deitada na areia da Laginha, pelo estrangeiro que lhe levará a um apartamento de um dos blocos do Copacabana.

Um par atrás do Bar d’Vinha, negro e branca que por cá ficou, formam um belo quadro, armadilha colorida para os olhos e a mente. Suspiros traiçoeiros desvendam o enigmático de profundidades habilmente disfarçadas entre as pernas de uma sueca.

Um grupo de estudantes no Cais da Alfandega toca violão e alguns estrangeiros deixam-se enlevar pelo som e alegria. Dois médicos e um gestor, que fazem diariamente a sua caminhada, param para ouvir, rapidamente os cigarros de marijuana são escondidos.

Bem cedo começam a chegar aqueles que vão à procura de um dia de traboi no porto. Nada melhor do que ‘um bodji’ e um grogue pa compô cabeça’. E uma boca lançada para o sexo feminino: ‘ah ninha, leva-me má bô’, quando o fato de treino é apertado realçando certas partes, ‘ah diaba, bô ta c’bom bolo, bem pa nha festa d’one, bem’, ‘ bô pô na fila dôs vez, bô tmá quel de bossa e bô irmã?’.

E fico a pensar como é que essa gente, feliz na inocência dos explorados, muitas vezes sem comer, consegue não perder o bom-humor.

MINDELO!

É impressionante a capacidade que temos de tornar ‘mindelense’ quem cá chega, todos saem daqui ‘cidadãos honorários do Mindelo’ após viverem este ambiente descontraído e sentirem connosco a mesma batida ancestral que nos irmana lá no fundo. O nosso temperamento cosmopolita e envolvente dá shows diários de alegria, descontracção, hospitalidade e respeito pelas diferenças. S. Vicente não morre, a nossa alegria não dorme, não uma alegria cega às nossas mazelas, endémicas e causadas, mas um alegria profunda, cheia de humanidade, plantada em nós e na nossa capacidade de dançar, beber, brincar, enfim de dizer ao outro que estamos juntos…

Pelo Fim d’óne, Carnaval, Sanjon, Festival, Kavala Fresk, etc., depomos a nossa bandeira, símbolo máximo desta ilha, para a levantarmos rapidamente. E cá ficamos com o nosso espirito de meninos d’Soncente, contemplando o sol se pôr sobre o mar atrás do Monte Cara, espectáculo permanente entre muitos outros nesta nossa Cidade Abençoada.

Atravesso, durante a caminhada na Avenida Marginal, na minha curiosidade, esse mar de caras e corpos, essas vozes, esse teatro itinerante dos caminhantes e não só e, ao chegar ao fim da caminhada, estou exausto e os músculos doloridos imploram a imobilidade dos preguiçosos. A garganta, essa, só pede uma ‘água de pote’. O estômago, o sossego de uma cachupa c’cavala.

O espirito parece mais vivo, mais estimulado pela observação de estranhos já quase amigos, meus confrades de caminhada, Mindelo do meu coração. Parabéns.

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