Casa para todos ou de todos? 1888 – dezoito-dois-oito, com certeza

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Por: Nelson Faria 

Há dias atrás fiquei ainda mais elucidado num almoço sobre as causas de morte em São Vicente, que se resumem basicamente a duas: “de repente” ou “de um mal”… E quem more de um mal, de repente corre o risco de morrer duas vezes. Por aqui pouco se fala de “morte matada”, embora ela exista, sendo a “morte morrida”, a predominante, e a “morte auto-infligida” começa a ganhar proporções da nossa congénere do Fogo… Um dia alguém há-de vingar-se: “Ou bo ta dod ou bo é de Soncent?”

O tema é sensível por causa das susceptibilidades que fere e de ainda culturalmente o nosso “apego” à morte, incompreensivelmente mais do que à vida, em muitos casos, nos causar embaraços.

Respeitando a dor e o sentimento de perda, sinto-me à-vontade com o tema pela forma de viver e encarar esta certeza da vida, a morte, como a sua última etapa numa viagem sem regresso e nem correspondência… Nem um cartinha quanto mais um e-mail do além. Aceito-a tranquilamente… Com os meus que já foram a certeza é que quando nos encontrar-mos não faltarão assuntos, não será monótono e muito menos terá a característica de “um casa de morte sem grogue” ou de um enterro sem música.

O Porto seguro onde os de São Vicente partem para o encontro no além é, com certeza, “Nhe marquinha”, dezoito, dois, oito, mais recentemente baptizado por “Casa para todos”, com muita dose de razão… É que realmente a única casa para todos é mesmo o cemitério, o resto é propaganda política. Eu prefiro chamar “casa de todos”, embora também seja esquisito com a nossa “cultura” e prefira ser queimado e reduzido a cinzas para alimentar os peixes que tanto me têm dado de comer na vida do que ir parar a um espaço, espaçoso, já sem espaço para tantos que irão morrer… Quero ser “enterrado” ou banhado com música. Nada de mornas e muito menos choradeira. Um bom reggae do Bob que já seleccionei fazia-me feliz no além…

Se calhar esta minha forma de ver choque alguns mas, garantidamente, não esta malta jovem e não jovem que, apesar de sentirem pelo familiar, amigo, vizinho, amigo do amigo, familiar do familiar ou de um mero conhecido, mesmo desconhecido que faleceu, tem-se orientado mais pela “paródia” à volta da morte do que no sentimento de perda em si. Fazem bem ou fazem mal? Eu é que não sou o juiz… O morto certamente queria vê-los felizes. Que assim seja… Seja feita a vontade de Deus e do morto.

Dizia que a malta concentra-se nas “piadas” e observações cómicas ao longo do enterro, com ou sem música, verificando-se entre a dor de uns, risos embutidos ou mesmo a venda descarada de talisca por parte de outros que aproveitam o momento para confraternização. A parte mais evidente desta vertente alegre do enterro tem a ver com o “tra boca d’mort”, onde pode faltar os 50 paus para o transporte, mas nunca “kel 20” para um “grogue, pontche ou stompe” no caminho. Embora hoje em dia “boca d’mort” já esteja tão sofisticado que já é tirado com Cerveja, Whiky, Vodka, Vinho, não incluo o casal conhecido de Suzete e Malaquias que andam sempre de conversa Fiada, entre tantas outras bebidas espirituosas.

“Trá boca d’mort”, além de tradição já é quase como uma obrigação. Todos pelo prazer do álcool e da paródia e alguns por desculpa. Nesta de desculpas uma amiga há-de permitir-me fazer esta inconfidência: Ela há muito que não vê nada do que pretende entrar-lhe pela boca e muito menos por outros orifícios por isso aproveita os funerais possíveis para “tra boca” da falta que vive, colocando a boca “largod na álcool”… Ao menos vai molhando o bico, mesmo que os lábios permaneçam secos…

Esta “tradição” começa a matar a sede de quem quer apressar a caminhada seguindo o morto, não até à casa para todos, mas até ao além. Se não se cuidarem a ressaca será diária, mesmo que se continue a gritar “nunca mais” no dia seguinte. Serão mais alguns casos de “morrer de um mal” sem se darem conta que foi um mal, de repente e auto-infligido.

Além do “trá boca d’mort”, outra “tradição” que já se faz perigosa é o Sete, não os sete do guarda-cabeça, mas o da missa, mesmo que não haja missa há sempre uma reunião por conta do morto com canja, cuscuz, café… e grogue, claro. Já se sai de casa às sete para o sete e só se chega às sete da manhã para trabalhar no dia seguinte, completamente regados ou ressacados… O sete, de tão perigoso, já matou um discípulo que “guitava” as missas na rádio e acompanhava-as todas… Foi morto de repente em pleno dia de sete de um falecido morrido de um mal… Coitado. Nem deu tempo para brincar o Sete na Rua de Morada com o Samba Tropical.

Cada um que cuide da sua boca porque “boca d’mort juntod má sete” são perigosos e ainda levam alguns para o dezoito, dois, oito, de um mal qualquer ou de repente.

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