Somos um país de morabeza e não onde “mora a besta”

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Por Sidneia Newton

Aos mindelenses que, de tanto reclamarem das decisões da Praia – que tudo tinha que vir da Capital, até a autorização para os serviços “desconcentrados” comprarem papel higiénico – podem agora dormir descansados em relação a um aspecto: os passaportes! Agora podem abrir a boca e dizer em alto e bom-tom: “estes não foram feitos na Praia”. Portugal agora é que nos trata desse importante documento.

Mas, resta analisar o resultado. Para começar, o design: a disposição da “carinha” sofreu alteração e há menos cor na foto. Tecnicamente estão mais bonitinhos, dizem uns, mas há aspectos nos passaportes que têm feito os cabo-verdianos arrancarem os cabelos.

Bom, indo ao ponto mais fundamental: agora, um processo que durava pouco mais de um mês – e que mesmo assim fazia-nos reclamar do centralismo da nossa Capital – passou a levar dois, três, quatro e até cinco meses. Há quem tenha medo que o passaporte lhe chegue às mãos já caducado. Parece, no entanto, que nem todos sofrem do mal da espera desse papel. Há sempre aqueles que se desenrascam com o passaporte de serviço.

Pois bem, levando a nossa morabeza além fronteira, o nosso Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, chega num congresso em Malta, em que a maioria presente era europeia, e sente-se muito à-vontade. Tão familiarizado que quase “rasgou o seu badiu” em vez da língua inglesa, como deveria. Acho que só não o fez porque o seu tradutor, o ministro Luís Filipe Tavares, teria dificuldades em percebê-lo. Falava-se do Brexit, e como cabo-verdiano não perde a oportunidade de uma boa piada, brincou com a situação dizendo que, se o Reino Unido sai da União Europeia, Cabo Verde entra. Além da plateia ter rido da sua brincadeira, outro efeito poderia despoletar: confundir ainda mais a cabeça dos cabo-verdianos, em particular daqueles que não acreditam ser africanos.

Falando sério, o PM fez referência à implementação do programa de suspensão de vistos para cidadãos da União Europeia. É impossível não fazer a comparação do grande desafio que a maioria dos cabo-verdianos enfrenta na obtenção de visto para colocar o pé na Europa. Chega a ser quase que uma ofensa. Isso pode provocar, nalguns, pensamentos/questões que às vezes nos ocorrem: “afinal eles são mais do que nós? Querem proteger as suas fronteiras de nós outros e em contrapartida nós escancaramos as nossas portar para entrarem sem necessidade de visto?!

Parece não fazer sentido a um marciano. Pois nós, cabo-verdianos que somos, por vezes deturpamos a nossa “morabeza” e a colocamos na “posição em que a Alemanha perdeu a guerra”, penso eu. Não é ser contra este programa que o país quer implementar. Até perspectiva-se um efeito positivo para a nossa economia e turismo. É apenas esperar que Cabo Verde exija mais dignidade no pedido e na concepção de visto aos cidadãos nacionais, para poderem entrar aonde queiram ir e não se sintam presos a este mar e à burocracia.

Somos um país de morabeza e não um país aonde “mora a besta”. Os nossos crioulos sentem a necessidade de ir e vir (que aliás é um direito). Por isso dêem-lhes os seus passaportes e vistos. Também querem mostrar a nossa morabeza, além fronteira.

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